• Governo Trump usou todas as armas para minar em seus seguidores a confiança no jornalismo, chegando a questionar a tradição centenária de a imprensa anunciar os resultados eleitorais 
  • Newsmax,  One America News Network (OAN) e rede social Parler ganham audiência e adeptos entre os trumpistas fiéis, que buscam veículos que validem suas próprias crenças
  • Brasil tem preferência maior por fontes de notícias que compartilhem próprio ponto de vista do que Estados Unidos, mostra estudo do Instituto Reuters

No dia 23/11 o presidente Donald Trump anunciou, como de costume via Twitter, que estava de acordo com o início do processo de transição oficial, pela Administração dos Serviços Gerais, para a nova equipe de governo de Joe Biden. Apesar disto, Trump continua não admitindo a derrota nas eleições e propagando alegações infundadas de fraude eleitoral.

Seria o fim da era Trump? Muitos torcem para que seja, sobretudo boa parte da imprensa, cujos nervos foram colocados à prova durante os últimos quatro anos. O controverso presidente americano consolidou a prática de dirigir-se à sociedade diretamente por meio das redes sociais. E a de desrespeitar jornalistas em público. 

Destempero ou jogo pensado ? 

Há muitos sinais indicando que o presidente deixará a Casa Branca, mas que o trumpismo criou raízes. E que o comportamento diante da imprensa faz parte de uma estratégia que não se encerra com a passagem do bastão.  Insuflar aversão ao jornalismo tradicional e glorificar mídias simpáticas ao trumpismo pode assegurar a Trump um palanque para suas ideias mesmo fora do cargo. 

Um exemplo foi a coletiva de imprensa realizada na sexta-feira (20/11) anterior ao anúncio da transição. Foi a primeira na Casa Branca em seis semanas. A porta-voz da Presidência Kayleigh McEnany jogou para a torcida daqueles que ainda vibram com as polêmicas do presidente americano derrotado nas urnas tanto pelo voto popular como no colégio eleitoral.

Sem ter feito coletivas desde 1º de outubro, mais de um mês antes das eleições presidenciais, a quarta porta-voz do governo Trump reforçou as alegações já desacreditadas pelas cortes de justiça sobre fraude eleitoral, recusando-se a referir-se a Joe Biden pelo termo “presidente-eleito”, usando apenas “ex-vice-presidente”. 

Mas McEnany deixou sua principal frase de efeito para o final da sessão, imediatamente antes de sair da sala. Após responder a perguntas dos poucos jornalistas presentes – a lotação da sala de imprensa foi reduzida em benefício ao distanciamento social – ela ignorou os pedidos de atenção da correspondente da CNN Kaitlan Collins e já se dirigia à saída quando voltou ao pódio e rapidamente disse:

“Eu não respondo a perguntas de ativistas”. 

Como era de se esperar, a reação da imprensa americana – e da população, por meio das redes sociais – veio rápida e polarizada. 

O papel da imprensa no processo eleitoral americano e a importância de evitar a polarização das informações reportadas ao público

Durante todo o mandato, Trump e seus seguidores utilizaram a imprensa para passar a mensagem de que… não se deve confiar na imprensa. A veterana jornalista Lesley Stahl revelou que durante a preparação para uma entrevista com Trump para o programa 60 Minutes, da rede CBS, em 2016, ele explicou a ela a razão de seus constantes ataques à imprensa:

 ‘Sabe por que eu faço isso? Faço para descreditar todos vocês e para minimizá-los. Assim, quando vocês escreverem matérias negativas sobre mim, ninguém acreditará em vocês”.

Flávia Vigio, jornalista brasileira que reside e trabalha nos Estados Unidos e é conselheira do MediaTalks, conversou conosco sobre como funciona o sistema. 

Ela explica que nos Estados Unidos, a imprensa tem um papel ativo nas eleições, sendo responsável pela compilação dos dados de votações divulgados pelos oficiais em cada estado e anunciando os vencedores, quando seus editores julgam que já há suficiente informação numérica para garantir que não há margem para alteração do resultado final.

E que pela Constituição americana, os estados são os responsáveis pela eleição dos presidentes. Por sua vez, os estados estabeleceram que conduziriam suas respectivas eleições populares para saber quem seus cidadãos residentes escolheriam para presidente. Com esses resultados certificados condado a condado, os representantes do Colégio Eleitoral em cada estado se reúnem para validar esse desejo e depositar seus votos em representação da população. É um processo complicado, que dura alguns meses e que tem algumas variações por estado, dificultando ainda mais a rapidez do resultado.

Flávia observou que há mais de um século, a imprensa tomou para si esse trabalho de reunir informações de forma mais ágil, colocando jornalistas e editores para acompanhar a contagem de votos nos condados e chegando ao resultado, com menos burocracia e mais rapidez. Não é um resultado oficial, mas é visto como tal pela sociedade, já que reflete exatamente os números de votos do colégio eleitoral que serão reportados ao presidente do Senado na última quarta-feira de dezembro e enviados para que o novo Congresso faça o anúncio do novo presidente em sua primeira sessão, em 6 de janeiro.

Um artigo da série Explicando a Eleição 2020 da Associated Press, no dia 11 de novembro, detalha como funciona o processo eleitoral e quem são os responsáveis por cada passo até o dia da posse do novo presidente, e esclarece a fundamental atuação que têm os veículos de comunicação, além da cobertura política.

Por que é a imprensa que anuncia os vencedores das eleições nos EUA?

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Em um de seus característicos tweets, Donald Trump pergunta durante o período das apurações, frustrado com os resultados que estão sendo anunciados pela imprensa americana: “Desde quando a lastimável imprensa tradicional anuncia quem será nosso próximo presidente?”

De acordo com a AP, desde 1848, quando ela anunciou a vitória de Zachary Taylor à Presidência do país.

Os Estados Unidos não têm um organismo central de responsabilidade sobre o processo eleitoral completo, semelhante ao Tribunal Federal Eleitoral brasileiro. Há várias razões para isso, inclusive o desejo dos estados de manterem o poder sobre as eleições presidenciais. 

Entretanto, essa descentralização também cria confusão entre os próprios americanos. Na semana passada, em entrevista ao canal Newsmax, o novo diretor da Federal Election Commission, Trey Trainor, que foi indicado para a posição por Trump,  sugerindo que esta eleição presidencial é “ilegítima”. 

Este tipo de polêmica cai como luva no debate polarizado na imprensa. 

O site de notícias RecentlyHeard.com (“Ouvido Recentemente”) escreveu:

 “O diretor-chefe Eleitoral da Federal Election Commission fez declaração bombástica de que, pelo que viu na Pensilvânia, e notícias que teve do resto do mundo, esta eleição é inconstitucional.”

“Não é qualquer pessoa fazendo esse anúncio. Trey Trainor não é apenas oficial de eleição estadual, ele é um oficial federal. E, ainda por cima, ele é o diretor de toda a Comissão.”

Mas, tanto como a polemização do assunto por veículos de comunicação, a própria afirmação de Trainor durante a entrevista é problemática e precisa ser checada. 

Em primeiro lugar, porque a Federal Election Commission é responsável apenas pela fiscalização das leis relacionadas ao financiamento de campanhas, e não tem nem responsabilidade nem informações oficiais sobre qualquer outra parte do processo eleitoral. De fato, Trainor reconheceu durante a entrevista que não recebeu nenhum briefing oficial sobre o assunto:

“Nós realmente não fomos informados sobre nada disso, dado que nós não… você sabe, são os estados que controlam as eleições e a FEC realmente não tem nenhuma jurisdição sobre como elas estão sendo manejadas no nível dos estados. No nível federal, eles comunicariam por meio da Comissão de Assistência Eleitoral.”

E além disso os membros da FEC não poderiam estar mais divididos em suas opiniões pessoais sobre a legitimidade das eleições. 

Três pessoas, três posições diferentes: em oposição a Trainor, a democrata Ellen Weintraub, que é membro da Comissão desde 2006 e já foi sua diretora por três mandatos anuais, disse em entrevista à CNN que “não há nenhuma evidência de qualquer tipo de fraude nos votos”. 

Em seguida, em seu perfil no Twitter, reforçou: “Eu posso confirmar: a FEC *não* diz ampla fraude”, copiando a explicação do professor de Direito e Ciências Políticas da Universidade da California-Irvine, Rick Hasen: “A FEC lida com financiamento de campanha, não com contagem de votos. E Tray Treinor não fala em nome da FEC”. 

O terceiro e último membro da Comissão, preferiu abster-se, preservando sua posição de independente, a classificação daqueles que não são filiados a um partido político nos EUA. 

Mas o que diz a Comissão de Assistência Eleitoral? A EAC é uma comissão independente e bipartidária, do governo americano, que tem entre suas responsabilidades certificar os sistemas de votação, manter os sistemas de registro de eleitores e validar as informações da administração eleitoral no nível federal. 

O chefe do órgão, Bem Hovland, também apontado por Trump para o cargo, por sua vez disse em entrevista à CNN que “não há nada que vimos que possa causar dúvidas verdadeiras sobre a integridade das eleições”, e acredita que esse tipo de alegações falsas precisa ser evitado, porque pode levar o público americano a perder a confiança no processo.

Com o importante passo dado pela General Services Administration esta semana, abrindo caminho para o processo de transição de governo, e com as certificações dos resultados em andamento nos estados, além das derrotas nos processos judiciais que não conseguiram apresentar provas de fraudes eleitorais, o caminho para a mudança de administração nos EUA avança. Mas a imprensa, além de sua missão já cumprida com sucesso de anunciar o vencedor dessa disputa, terá também um papel crucial na preparação do espírito da sociedade americana para o início do novo mandato – e os próximos, pelo menos, quatro anos.

Imprensa e redes sociais: quem ganhou e quem perdeu  

Na busca por veículos e canais de comunicação que validem suas próprias crenças, uma parte dos americanos está migrando de canais como a Fox News e plataformas como o Twitter para novos meios que surgem (sob paywall)ou ganham nova relevância por permitir – e incentivar – opiniões mais polarizadas. 

A Fox News, conhecida por sua cobertura extremamente favorável ao partido Republicano e, nos últimos anos, ao presidente Donald Trump, tomou algumas posições mais questionadoras com relação às alegações não comprovadas de fraude, enfurecendo boa parte de seus assinantes. 

Já o Twitter passou a adicionar, desde maio deste ano, novos avisos e mensagens de alerta para informações polêmicas ou enganosas, e usou este recurso frequentemente – mais de 150 vezes, de acordo com o site FactBase – nos últimos meses para sinalizar postagens de Trump (sob paywall)

Com isso está crescendo a atenção a veículos com posições mais polarizadas, como o canal Newsmax e a One America News Network (OAN), que têm recebido os telespectadores decepcionados com a Fox News e ávidos de uma cobertura sem barreiras em suas críticas aos Democratas e suas políticas. 

No universo das redes sociais, a plataforma social Parler vem se apresentando como uma alternativa ao Twitter para a “liberdade de expressão sem violência ou censura”. Na capa de seu site, uma jovem vestida como fazendeira americana, de macacão jeans, camisa xadrez e galochas de borracha, oferece aos interessados a proposta de “falar com liberdade e expressar-se abertamente, sem medo de ser ‘desplataformado’ por suas opiniões”. 

Leitores e telespectadores influenciados pela retórica trumpista de uma eleição fraudulenta e uma vitória erradamente declarada a Biden já causam mais uma movimentação em seus hábitos de consumo de meios de comunicação, e criam uma oportunidade de novos posicionamentos desses veículos.

Quem sabe até com novas oportunidades de negócios para a continuidade da marca Trump, que deve continuar afetando o discurso social e político nos EUA mesmo depois de sua derrota presidencial.

Brasil tem preferência maior por fontes que compartilhem próprio ponto do que Estados Unidos

Entre os nove países estudados pelo Instituto Reuters em seu mais recente relatório de análise global da imprensa, o Brasil foi o que apresentou o maior percentual (43%) de pessoas interessadas em fontes com abordagem que confirmem suas crenças (seguido por 34% na Espanha e 30% nos Estados Unidos) e menos interessados (51%) em fontes com abordagem objetiva (bem abaixo dos 76% no Reino Unido, 78% no Japão e 80% na Alemanha).

A conclusão do estudo é a de que aqueles com visões políticas extremas são significativamente menos atraídos por notícias objetivas – e essas são frequentemente as mesmas pessoas que estão cada vez mais desconfiadas da imprensa tradicional. 

Preferência por abordagem objetiva ou parcial influencia na fonte de notícias escolhida para se informar

A pesquisa mostrou que no Reino Unido, por exemplo, onde a TV é regulada com regras que exigem imparcialidade, o percentual de preferência por notícias que confirmem suas crenças entre os que a usam como principal fonte de notícias é de apenas 8%. Esse percentual quase triplica entre os que se informam pelas mídias sociais e pelos jornais impressos, mas mesmo assim a preferência pelo viés objetivo não é menor do que 69% entre os usuários de qualquer das três fontes.

No Brasil, preferência por viés parcial se verifica nas três fontes estudadas

O estudo destaca que no Brasil a preferência pela abordagem parcial se verifica nos usuários que se informam pelas três fontes analisadas, e ainda mais significativamente entre os que se informam pelas mídias sociais. A preferência pelo viés objetivo não é maior do que 52% entre os usuários de qualquer das três fontes.

Preferência por fontes com ponto de vista cria oportunidades para câmaras de eco e mais polarização

O relatório ressalta que, de um lado, esse questionamento do valor das notícias imparciais verificado mais fortemente em alguns países cria oportunidades para veículos que ofereçam uma cobertura noticiosa de acordo com as crenças do público que se pretende atrair e reter. Do outro lado, alerta que essa tendência, junto com os grupos de mídias sociais e os algoritmos das plataformas, têm o poder de criar “câmaras de eco” e mais polarização.

Tendência é de aumento, pois jovens preferem fontes com ponto de vista

Considerando todos os nove países analisados, a análise mostra que a abordagem por notícias sem ponto de vista continua sendo a preferida pelos públicos de todas as idades, mas ela é mais preponderante entre os públicos mais velhos.

A tendência por notícias com ponto de vista (mais notadamente compartilhando as  próprias crenças) se verifica com mais força entre os menores de 35 anos em todos os países analisados. Os jovens ainda recorrem a marcas tradicionais em tempos de crise, mas o estudo enfatiza que eles são menos propensos a serem convencidos por notícias embasadas na abordagem “ele disse, ela disse” que busca apresentar os dois lados dos argumentos.