Esta semana, jornais britânicos destacaram a multa de £ 200 aplicada pela polícia de Portsmouth a Hanna Dean, um mulher de 30 anos, mãe de dois filhos, por ter tirado fotos de um dos muitos hospitais sobrecarregados de pacientes de coronavírus no país e durante a madrugada e postado no Facebook para sugerir que estava vazio. E que o governo estaria mentindo para a população. 

O ato faz parte de um movimento de pessoas que têm feito ações semelhantes para desacreditar a existência ou a gravidade da Covid-19, a despeito dos altos índices de incidência e mortes no país.  Em uma contra-ofensiva, emissoras de TV passaram a exibir cenas dramáticas de hospitais cheios e médicos desesperados com a sobrecarga, enfatizando a gravidade da situação. 

As próximas semanas e meses serão cruciais para o controle da pandemia, aumentando a responsabilidade e o desafio de comunicadores, jornalistas, empresas de mídia  e influenciadores digitais para reverter as teorias conspiratórias que miram não apenas no descrédito das vacinas, mas também no distanciamento social que ainda será necessário por um bom tempo. Mas como convencer a população de que a doença existe, é grave e que a vacina não oferece riscos? 

O Instituto Reuters para Estudos do Jornalismo procurou responder a essa pergunta com um relatório consolidando o aprendizado obtido a partir de pesquisas realizadas ao longo do ano passado, que examinaram o comportamento do público em relação às notícias sobre a pandemia.  

Trata-se de uma ajuda mais do que necessária, a julgar pelos acontecimentos recentes. Além de infiltrarem-se em unidades de saúde, negacionistas chegam a fazer manifestações diante de hospitais na Grã-Bretanha. 

Uma delas foi filmada por um médico na noite de Ano Novo, virando um desabafo no Twitter com quase cinco milhões de visualizações.  

Embora banidos das principais redes sociais, muitos teóricos da conspiração continuam em evidência. Quem se tornou ainda mais popular nas últimas semanas foi Piers Corbyn, irmão-problema de Jeremy Corbyn, político que até o ano passado liderou o Partido Trabalhista e concorreu nas eleições gerais de dezembro contra Boris Johnson. 

O parlamentar Corbyn já disse nada ter a ver com as teses do irmão, que aproveitando a popularidade anunciou-se candidato a prefeito de Londres. Na noite de Ano Novo, comandou uma festa ilegal reunindo negacionistas sem proteção. 

Está suspenso no Twitter mas a conta continua ativa, exibindo postagens como um vídeo mostrando uma enfermeira que teria desmaiado ao tomar a vacina, como se fosse um sinal de perigo da imunização. 

Não é só no Reino Unido que tais absurdos são disseminados pelas redes e grupos de mensagem. Mas o fato de circularem em língua inglesa – aliado ao soft power britânico que leva o país a ter influência cultural global – espalha a tese de que a Covid não existe para além das fronteiras desse conjunto de ilhas com menos de 70 mil habitantes. 

Instituto Reuters: o público e as notícias sobre a pandemia 

O relatório do Instituto Reuters não traz revelações novas, pois é uma compilação de pesquisas anteriores. Nem dados específicos sobre o Brasil. Mas apresenta indicações que podem ajudar comunicadores e jornalistas na hora de pensar pautas, desenhar programas ou desenvolver ações de comunicação destinadas a informar e mobilizar a sociedade nessa nova fase crucial da vacina e de permanência das medidas de controle. 

Quem assina é o pesquisador sênior Richard Flechter. Ele começa lembrando que o coronavírus representa uma crise de saúde e uma emergência de comunicação, sobretudo no momento em que entramos na fase de vacinação: 

“Com uma minoria significativa expressando certo grau de hesitação em receber uma vacina contra o coronavírus, uma comunicação clara e eficaz sobre os benefícios e riscos (ou a falta deles) será, sem dúvida, importante para maximizar a aceitação. Ao mesmo tempo, muitos desafios de comunicação familiares – como convencer as pessoas da necessidade de limitar o contato social, de usar máscaras e de lavar as mãos – serão tão importantes em 2021 quanto em 2020”. 

 

 

O poder do jornalismo profissional 

O trabalho confirma que nenhuma fonte ou tipo de mídia é capaz de alcançar todos os públicos, o que demanda o uso de um combinação de plataformas para conscientizar a população. Mas ressalta o poder do jornalismo tradicional, citando estudos feitos ao longo de 2020. 

  • No início da pandemia, em março de 2020, a pesquisa feita pelo Instituto em seis países (Argentina, Alemanha, Espanha, Coreia do Sul, Reino Unido e Estados Unidos) apontou que a mídia tradicional era naquele momento a fonte de informações mais amplamente usada sobre o coronavírus em todos os países. O pesquisador observa que menções a governos, cientistas, médicos e organizações de saúde que aparecem em seguida provavelmente referem-se a entrevistas e pronunciamentos transmitidos pelos meios de comunicação.

  • No Reino Unido, o órgão regulador de comunicações Ofcom constatou consistentemente ao longo de 2020 que os meios de comunicação tradicionais e impressos (acessados online ou offline) foram as fontes de notícias mais amplamente utilizadas sobre o coronavírus – à frente das mídias sociais, aplicativos de mensagens e outros sites de notícias apenas online. O Ofcom também descobriu que os serviços da BBC vinham sendo responsáveis por grande parte do uso de notícias de coronavírus no Reino Unido. 
  • Mecanismos de busca, mídias sociais e aplicativos de mensagens e sites de vídeo têm sido usados para obter notícias sobre o coronavírus por uma minoria significativa. Mas, como é o caso com o uso de notícias de forma mais geral, o alcance combinado de notícias de coronavírus online e offline dos veículos tradicionais é frequentemente maior. O uso de notícias nas mídias sociais é mais difundido entre os grupos de idade mais jovem, mas a maioria encontra notícias sobre coronavírus nas mídias sociais “incidentalmente”, visto que as estão usando para outros fins. 

Fadiga de notícias, um risco que aumenta à medida em que o tempo passa 

O relatório chama a atenção para o risco da fadiga de notícias, que  aumenta à medida em que o tempo passa e as pessoas ficam mais exaustas de ler, assistir e ouvir notícias sobre a doença. Depois de quase um ano de massacre de notícias sobre a pandemia, este risco é aumentado. 

Richard Flecther destaca que o consumo de informações relativas à pandemia aumentou no início da primeira onda no Reino Unido em abril, mas diminuiu substancialmente durante o verão. 

“A quantidade de pessoas que se informaram sobre a Covid-19 pelo menos uma vez por dia por semana, em média, caiu 24 pontos entre meados de abril e meados de agosto,  passando de 79% para 55%”

Ele observa, no entanto, que não está claro se esse aumento no consumo de notícias na fase de lockdown deve-se ao fato de que havia mais tempo livre e uma necessidade urgente de informações confiáveis sobre o coronavírus àquela altura da crise. 

No sentido contrário, aumentou a quantidade de pessoas evitando noticias sobre a pandemia depois que o pior parecia ter passado. A pesquisa do Instituto Reuters revelou que em abril 15% disseram que sempre ou com frequência o faziam, percentual que subiu para 25% em maio e permaneceu estável nos meses seguintes. O motivo alegado representa um desafio para o jornalismo: o efeito negativo sobre o humor. Haja criatividade para falar de um tema dramático sem afastar o público. 

Desigualdades na informação 

Outro aspecto abordado é a desigualdade na obtenção de notícias. Pessoas mais velhas e de maior escolaridade apresentaram tendência maior a se informar a respeito da Covid-19,  segundo o Instituto Reuters apurou. Não é um comportamento verificado unicamente no noticiário sobre a doença, mas pode fazer uma grande diferença no contexto de uma crise que depende de conscientização sobre medidas de controle para ser debelada. 

As pesquisas identificaram em abril uma lacuna de 12 pontos entre a proporção de pessoas com 55 anos ou mais (86%) que consumiam notícias do coronavírus pelo menos uma vez por dia em média e aqueles com menos de 55 anos (74%). O intervalo aumentou para 24 pontos no final de junho (75% vs. 51%). 

A diferença no consumo de notícias entre homens e mulheres aumentou de 1 para 8 pontos, sinalizando que elas fugiram mais do noticiário do que eles. As lacunas entre renda familiar e educação não aumentaram nem diminuíram em relação a pesquisas anteriores, mas igualmente mostram que pessoas de menores renda e escolaridade informam-se menos. E pelo menos no Reino Unido a queda no acesso a informações sobre a Covid-19 foi mais acentuada entre elas. 

“Diferentes grupos demográficos e de orientações políticas acessaram as notícias sobre o coronavírus de maneira diversa, refletindo os padrões registrados para outros tipos de notícias. Pessoas mais velhas são mais propensas a usar televisão e mídia impressa. Os jovens tendem a usar mais as mídias sociais. O uso de certos veículos de notícias também segue os padrões que vemos nas pesquisas sobre exposição seletiva, em que os da direita usam mais as fontes inclinadas à direita e vice-versa. O que está claro é que nenhuma fonte de notícias ou meio de comunicação é suficiente para atingir a todos”, salientou Fletcher. 

Consumo e confiança não andaram juntos na crise 

Segundo o Instituto Reuters, a mídia tradicional foi a fonte de notícias sobre o coronavírus mais usada na primeira fase da pandemia, mas não a mais confiável em nenhum dos cinco países pesquisados.

Em todos eles, o grupo formado por cientistas, médicos e especialistas em saúde registrou índices de confiança entre 74% (Alemanha) e 90% (Argentina). Organizações jornalísticas ficaram em quarto lugar (atrás de entidades de saúde nacionais e globais) nos cinco países.  A confiança nelas variou entre 51% na Espanha e 67% na Coreia do Sul. 

No Reino Unido, no entanto, a confiança no jornalismo para informações sobre o coronavírus caiu junto com a confiança no governo, segundo o estudo: de 57% em abril para 46% em maio, permanecendo nos mesmos patamares nos meses seguintes.

Em agosto, houve queda semelhante na proporção dos que declararam que a mídia os ajudava a entender a pandemia e a explicar o que deveriam fazer. Mais grave: cerca de um terço (35%) achava que a situação do coronavírus havia piorado pela forma como a imprensa a cobriu – um sinal de alerta para a forma como o tema foi abordado, pelo menos no Reino Unido. 

Mas a imprensa ficou melhor do que as mídias sociais 

Embora a confiança nas organizações de notícias como fonte de notícias e informações sobre o coronavírus tenha diminuído, as pesquisas analisadas pelo Instituto Reuters mostraram que foi  muito maior do que a confiança nas informações encontradas nas mídias sociais, aplicativos de mensagens, mecanismos de pesquisa e sites de vídeo, segundo Richard Fletcher:

“Encontramos ‘lacunas de confiança’ consistentes entre a confiança nas informações de coronavírus na mídia tradicional e nas informações acessadas nas plataformas, geralmente cerca de 20 pontos entre os mecanismos de pesquisa e a mídia de notícias, e cerca de 30 pontos entre as mídias sociais, sites de compartilhamento de vídeo ou aplicativos de mensagens e mídia de notícias”. 

Poderosos ajudaram a promover desinformação 

O levantamento do Instituto Reuters salienta que a desinformação real e séria associada à pandemia foi encontrada com mais frequência em grandes plataformas como o Facebook e o YouTube, conforme apontou pesquisa feita em abril. 

“Nossa análise do trabalho de verificadores de fatos nos primeiros meses de 2020 mostrou um grande aumento na desinformação do coronavírus, com maior prevalência de fatos reais distorcidos e recontextualizados, na maior parte das vezes usando ferramentas simples, em detrimento de notícias completamente inventadas”.

A origem delas merece reflexão. Embora o trabalho aponte que a maioria das fake news sobre o coronavírus checada pelas agências tenha vindo de pessoas comuns, a desinformação proveniente de políticos, celebridades e figuras públicas recebeu mais engajamento nas redes sociais.  

A responsabilidade – ou irresponsabilidade – de personalidades na crise fica evidente. Festinhas como aquela promovida pelo jogador Neymar na última semana do ano são um exemplo de mau exemplo. 

O poder da informação para controlar a doença 

O estudo ressalta a dificuldade de identificar com clareza a quantidade de pessoas atingidas por desinformação, já que depende de autodeclaração. Mas comprova seu potencial negativo sobre o conhecimento a respeito da doença e a intenção de seguir as regras indicadas pelas autoridades sanitárias, como demonstrado por esta pesquisa feita no Reino Unido em junho. Ela comprova que as pessoas mais expostas a notícias foram as mais inclinadas a obedecer o que determinam as autoridades de saúde. 

Richard Fletcher observa que de forma mais ampla, os efeitos positivos do uso de notícias provavelmente dependem de se as pessoas confiam nelas o suficiente para receber as informações de maneira adequada:

“É por essa razão que identificamos os ‘infodemicamente vulneráveis’ – um grupo pequeno, mas crescente, que faz pouco ou nenhum uso de notícias sobre a pandemia e têm pouca confiança nela, mesmo que chegue até eles. No Reino Unido, o tamanho desse grupo cresceu de cerca de 6% em abril para 15% em agosto”. 

Foto: Hakan Nural / Unsplash

Informação é essencial para a fase de vacinação

O pesquisador destaca que isso é de importância crucial para a fase de vacinação da pandemia. Ele lembra que muitas pesquisas, incluindo as do próprio Instituto, têm registrado a hesitação das pessoas em tomar a vacina, reforçando a importância da informação nesse momento. E do controle da desinformação: 

“Os infodemicamente vulneráveis, que não usam a imprensa tradicional para obter informações sobre o coronavírus, podem recorrer às mídias sociais, tornando cruciais os esforços para combater a desinformação nessas plataformas.

Fletcher ressalta ainda a necessidade de encarar a desigualdade no consumo de notícias confiáveis: 

“Embora a o jornalismo tradicional atinja bem os consumidores mais velhos e de maior poder aquisitivo, ele tem mais dificuldades para alcançar muitas setores menos privilegiados da população”.  

E finaliza dando um conselho sobre a melhor estratégia para conscientizar o grande público: 

 “A sugestão mais simples para comunicação nos próximos estágios da crise do coronavírus é focar menos nos políticos, exceto quando absolutamente necessário, e mais sobre as fontes que são altamente confiáveis e que comprovadamente ajudam as pessoas a entender a crise, como autoridades de saúde, cientistas e médicos”. 

Idosos, a arma para conquistar a confiança na vacina

A julgar pela experiência de três países europeus, idosos devem ser acrescentados à lista. Na Itália, pessoas com mais de 100 anos têm sido destacadas pela imprensa para endossar a imunização. Uma delas é Fiorina Fiorelli, que completou 108 anos no dia 13/1, e cujo nome remete ao símbolo da campanha do governo, a flor prímula, que marca o início da primavera e lembra renascimento.

A lúcida senhora sobreviveu a duas guerras e à Gripe Espanhola. Arrumou-se toda para ir tomar a vacina e transmitiu a mensagem de confiança em rede nacional. 

 

 


Na França, onde o índice dos que declaram intenção de se vacinar é de 40%, a primeira pessoa a se vacinar no país, dona Mauricette, de 78 anos, inspirou a personagem Chez Mauricette. A ideia partiu de Karl Olive, ex-repórter esportivo e prefeito de Poissy, onde foi instalado o primeiro centro francês de vacinação contra a Covid, batizado com o nome da super-heroína. Ela aparece em cartazes e banners e conquistou as redes sociais.

 

No Reino Unido é fáci imaginar quem seria o símbolo. No sábado passado foi divulgada a notícia de que a rainha Elizabeth, de 94 anos, e o príncipe Philip, de 99, tinham sido imunizados, em uma rara exposição de assuntos dessa natureza pela família real.

 

 

A sabedoria dos idosos nunca foi tão necessária.


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