Em um auditório lotado de diplomatas e jornalistas estrangeiros no centro de Londres em 25 de fevereiro de 2020 – um dos últimos eventos dessa natureza antes da pandemia – um representante do governo chinês interpelou Ban Ki Moon, convidado de honra da apresentação do relatório Soft Power Index elaborado pela consultoria britânica Brand Finance. De forma áspera, cobrou do ex-secretário geral da ONU um reconhecimento dos esforços da China para controlar o coronavírus e discursou a favor de seu país.

Diplomático, Ban embromou um pouco e deu uma resposta até simpática à China, reconhecendo seus recursos para lidar com a crise mas chamando a atenção para os riscos de outros países não terem a mesma capacidade, demandando cooperação internacional.

 

Para representantes dos demais países, a cena pode não ter gerado empatia. Era um problema distante. E enquanto a China via sua imagem enxovalhada pelo vírus, os Estados Unidos comemoravam sua liderança em soft power, que inclui entre suas métricas a existência de uma indústria de mídia influente e confiável no país. 

Menos de um ano depois, a Brand Finance prepara a próxima edição de seu estudo anual que mede a influência global dos países. Mas os resultados de uma pesquisa preliminar medindo a percepção sobre como cada um respondeu à pandemia já antecipam os estragos que o coronavírus fez. E indicam que transparência gerou dividendos na imagem internacional. 

Na lanterna da avaliação da sociedade não ficou a China – foi a 36ª –  e sim os Estados Unidos, parecendo até um castigo para um Donald Trump que não perdeu uma oportunidade de criticar o “vírus chinês” durante 2020, tornando-se um dos maiores propagadores de fake news da crise. 

Dois países governados por mulheres – Nova Zelândia e Alemanha –, reconhecidos pela transparência na relação com a sociedade e com a imprensa, conquistaram a preferência respectivamente do público geral e da audiência especializada, formada por jornalistas, empresários, líderes políticos, acadêmicos, membros de think tanks e de organizações não governamentais. 

O Brasil  não teve bom desempenho. Para os 750 especialistas entrevistados, tem a pior gestão da pandemia da Covid-19 entre os 30 avaliados. Para 75 mil respondentes do público em geral, ficou em 103º em uma lista formada por 105 nações. 

A pontuação líquida é a diferença entre as respostas “administrou bem” e “administrou mal” a respeito de três aspectos: gestão da economia, proteção à saúde e bem-estar e ajuda e cooperação internacional

Eduardo Chaves, diretor da Brand Finance para a América Latina, confirma que a cobertura desfavorável em grandes veículos globais influenciou a percepção, situação que se acentua pelo fato de o Brasil estar atrasado na aplicação da vacina em relação a outras nações. 

E o tamanho da população contribuiu para a impressão negativa, já que o país, assim como Índia e Estados Unidos, aparece regularmente no topo do ranking mundial de casos e de mortes por Covid-19. 

Chaves observa que a reputação não foi tão afetada em nações com número até maior de casos por 100 mil habitantes, mas que não aparecem entre os primeiros no ranking de números absolutos. Ele acha que se os dados fossem ponderados, a impressão poderia não ser tão ruim. 

Mesmo que fossem, no entanto, há outro fator que não pode ser ponderado: as controvérsias dos líderes. Questões políticas associadas à gestão da crise, posicionamento muitas vezes contrário ao consenso científico e conflitos com a mídia, com agressões verbais e prisões, contribuíram para comprometer a visão externa dos três últimos colocados na lista. 

 

Resposta rápida e clareza

A resposta rápida e a clareza de comunicação da primeira-ministra neozelandesa Jacinda Ardern ao lidar com a crise, amplamente elogiadas pela mídia e reconhecidas por pessoas em todo o mundo, foram destacadas no estudo. 

Se clareza tem valor aos olhos do público, não é difícil entender por que os Estados Unidos ficaram em último, sob a liderança de um presidente que se notabilizou por confrontos com a imprensa e por um discurso errático e perigoso, insuflando grupos negacionistas como o QAnon. 

Com a maioria dos casos e mortes relacionadas à pandemia, a maior economia do planeta enfrentou duras críticas e questionamentos no cenário global, na avaliação da consultoria: 

“O contraste gritante entre as percepções do público sobre como a Nova Zelândia e os EUA lidaram com a pandemia resume as visões contrastantes das duas nações do mundo, encabeçadas por líderes quase que totalmente opostos. 

Por um lado, temos as políticas abertas, liberais e compassivas de Ardern versus a abordagem frequentemente combativa, protecionista e isolacionista de Trump. Com o presidente eleito Joe Biden se preparando para assumir as rédeas do poder, todos os olhos estarão voltados para ele para iniciar a recuperação em todo o país ”, disse David Haigh, CEO da Brand Finance. 

 

A opinião dos especialistas: Brasil teve a pior avaliação nos três quesitos

A pesquisa entre integrantes do público especializado, que incluiu jornalistas de diversos países, avaliou a percepção da condução da pandemia nas três áreas consideradas mais relevantes para a influência de um país no cenário internacional: economia, saúde e cooperação. 

Numa escala de -100 a +100, o Brasil ficou com o pior índice geral, de -56, abaixo de Estados Unidos (-35) e Índia (-23), os três países com o maior número de casos e de mortes provocadas pela doença. O Brasil foi o que recebeu a pior avaliação dos especialistas em todos os quesitos analisados.

 

 

Condução Econômica – O Brasil teve o maior percentual de desaprovação no quesito, com 50%, seguido pelos Estados Unidos, com 44%. Apenas 3% dos especialistas avaliaram positivamente a gestão do Brasil nessa área. Foi a aprovação mais baixa entre os 30 países analisados, seguida pela do Egito, cuja gestão foi avaliada positivamente por 10% dos respondentes. 

Gestão da Saúde – Com 70% de desaprovação, a gestão do Brasil na área foi a mais avaliada entre os 30 países analisados pelos especialistas, seguido pelos Estados Unidos, com 63%. O índice de aprovação foi tão baixo quanto o obtido na avaliação da condução econômica: apenas 3% dos especialistas consideram boa a gestão brasileira na área de saúde. Foi o menor índice de aprovação dos 30 países analisados, seguido pela África do Sul, que recebeu 11% de aprovação.

Cooperação internacional – O Brasil voltou a ocupar a última colocação, com 57% de desaprovação, seguido pelos Estados Unidos, com 51%. O índice de aprovação de 5% foi também o mais baixo dos 30 países analisados, seguido pela Índia, que obteve 10% de avaliação positiva no quesito.

 

 

A Alemanha, mesmo tendo que enfrentar um número de casos da doença entre os dez maiores do mundo, foi considerada pelos especialistas o país com a melhor gestão geral da pandemia, com um índice de +71, seguida por Japão (+64) e Nova Zelândia (+57).  

Em todos os quesitos analisados, a Alemanha também liderou, com índices de aprovação acima de 70% em todos eles, com destaque para a gestão da saúde, que atingiu 74% de avaliação positiva. 

 

A opinião da sociedade: Brasil apresentou uma das três piores gestões da pandemia

As  75 mil pessoas do público em geral ouvidas pela Brand Finance ao redor do mundo consideraram os três países com maior número de casos e de mortes como os de pior gestão da pandemia. Este índice examinou a performance de 105 nações.  

 

A Nova Zelândia, terceira colocada na avaliação dos especialistas, assumiu a primeira posição, com um índice de +43, seguida por Suíça (+42) e Japão (+41). Mesmo perdendo a liderança, a Alemanha garantiu a quinta posição, com um escore de +39. 

Embora aos olhos do público a condução da primeira-ministra Jacinda Ardern tenha sido a melhor, os especialistas consideraram maior o desafio enfrentado pela Alemanha, por ter uma população dezesseis vezes maior que a Nova Zelândia e fronteiras compartilhadas com diversos países. 

 

 

Para o público em geral, os Estados Unidos foram o país mais mal avaliado em todos os quesitos. O Brasil ficou entre os três piores em todos eles. Veja os resultados: 

Condução econômica – Com 37% de desaprovação, a condução econômica dos Estados Unidos durante a pandemia foi a mais mal avaliada pelo público. O Brasil ficou em antepenúltimo, com 34% de desaprovação. O Japão lidera esse ranking, com 53% de avaliação positiva.

Gestão da saúde – Os Estados Unidos foram o país mais mal avaliado pelo público em geral, com 44% de desaprovação. O Brasil ficou em penúltimo, na 104ª posição, com 38% de desaprovação. O país mais bem avaliado no quesito foi a Nova Zelândia, com 54% de aprovação.

Cooperação internacional – A pior atuação na área de cooperação internacional ficou com os Estados Unidos, com 38% de desaprovação. O Brasil ficou em penúltimo, com 31% de avaliação negativa.  A melhor avaliação nesse quesito foi a da Nova Zelândia,  49% de aprovação.

 

 

Imagem positiva anterior ajudou mesmo que a gestão não tenha sido perfeita 

Reconfirmando o valor do capital de imagem acumulado, a pesquisa aponta que nações ricas com forte reputação anterior de boa administração foram reconhecidas como modelos de gestão da crise aos olhos do público, em alguns casos sem que a sua abordagem para lidar com a pandemia tenha sido exatamente a melhor.   

A Brand Finance ressalta pontuações líquidas acima de +35% registradas para Suíça, Japão, Canadá, Finlândia, Noruega, Singapura, Dinamarca, Coréia do Sul, Austrália, Áustria e Suécia.

O caso desta última é apresentado como exemplo da tese. Nação que foi particularmente controversa na sua resposta à Covid-19, sem adotar o lockdown que era consenso e impondo poucas restrições com o objetivo de alcançar a imunidade de rebanho, acabou com a oitava maior incidência de mortes por 100 mil habitantes na Comunidade Econômica Europeia. No entanto, o público geral e as audiências especializadas classificaram a Suécia em 13º lugar na gestão da pandemia.

Pode ser o efeito residual da boa reputação conquistada no passado. No índice Soft Power 2020, ela havia ficado à frente de gigantes territoriais e econômicos graças a uma pontuação alta na métrica respeito ao meio ambiente, atribuída ao sucesso da ativista Greta Thunberg. 

A Brand Finance observou também o caso do Japão, que segundo a consultoria acabou não se confirmando, como muitos esperavam, como um dos países mais atingidos pela doença devido à proximidade com a China, por ter cidades densamente povoadas e população muito idosa. O país ficou em segundo lugar na avaliação do público especializado, reconhecido como relativamente bem-sucedido, com menos casos e mortes por coronavírus e com sua economia saindo-se melhor. 

Por outro lado, a empresa afirma que fraquezas de grandes potências ocidentais acabaram expostas pela pandemia, e suas falhas não passaram despercebidas pelo público, destacando as pontuações baixas de França (+15%), Reino Unido (+14%), Espanha (+4%) e Itália (-1%).

No Oriente Médio, os Emirados Árabes Unidos foram o país com percepção mais positiva na crise do coronavírus, posicionando-se em 14º em nível mundial e pontuação líquida de +33%.  

A Brand Finance aponta como um dos motivos a ajuda internacional ao desenvolvimento de vacinas, já que a cooperação internacional é um dos itens avaliados. Mas assinala que os níveis mais baixos de familiaridade com o que acontece no país, em comparação a nações como Suíça, Dinamarca e Áustria, podem ter limitado o impacto positivo dessa iniciativa. 

 

Visibilidade internacional 

Outra máxima da gestão de reputação que a pesquisa evidencia é o valor de um esforço consistente para promover a boa imagem de um país no cenário externo. Segundo a Brand Finance, algumas nações que até tiveram bom desempenho na administração da pandemia não foram devidamente reconhecidas por causa da baixa exposição fora de suas fronteiras.

Um movimento oposto ao que aconteceu com o Brasil, cuja alta visibilidade na imprensa global e posição no topo da lista de casos e mortes tornou os problemas internos mais evidentes. 

Para Steven Thomson, diretor de Insight da consultoria, as percepções positivas foram determinadas por outros fatores além da implementação bem-sucedida de políticas para controlar a Covid-19:

“A reputação desempenha um papel vital, assim como a familiaridade. Nações com alta reputação muitas vezes recebem crédito extra do público em geral, enquanto aqueles que recebem pouca atenção da mídia tiveram um desempenho notavelmente inferior na pesquisa. ”

 

O exemplo principal é o do Vietnã, que ficou com apenas +8%, apesar de registrar baixo número de casos e mortes por Covid-19. História que se repetiu com a Eslováquia, com pontuação inicial de apenas +5%, mas com muito menos casos do que seus vizinhos europeus e um bem-sucedido programa de testes em pessoas assintomáticas. 

 

Gestão da Organização Mundial de Saúde foi avaliada positivamente

A pesquisa examinou também a opinião do público sobre o desempenho da  Organização Mundial de Saúde. No geral, 31% dos respondentes consideraram a condução positiva, e 20% de maneira negativa. 

A maior aprovação ao trabalho da organização foi dada pelos chineses, e a maior reprovação pelos japoneses. Os norte-americanos ficaram divididos: 35% aprovaram a gestão da OMS e 26% a reprovaram.

As voltas que o mundo dá: em 14 de janeiro do ano passado, a organização divulgava que não havia sinais de transmissão do vírus entre humanos. 

 

Pela abrangência geográfica da amostra, os resultados não refletem conjunturas e polarizações locais de cada país. Trata-se da visão que o mundo tem sobre como as nações conduziram a maior crise da história recente e como interagiram com a sociedade, seja diretamente ou por meio da imprensa e das mídias sociais.

Reputação é difícil de ganhar e fácil de perder. As percepções negativas provocadas pela crise devem causar impacto por muito tempo ainda, como uma dolorosa Covid longa.  E ajudam a lembrar o valor da imprensa livre e fortalecida para uma nação. 

 

Leia também 

 

 

 

 

 

 

 

Especial sobre os efeitos da pandemia no jornalismo, com a participação de correspondentes em sete países. O que aconteceu com os empregos, as mudanças na forma de trabalhar, as ameaças à liberdade de imprensa e o avanço das fake news