No duelo entre o governo da Austrália e as plataformas digitais para regulamentar o pagamento pelo conteúdo das organizações de notícias, o Google piscou primeiro. Depois de ter anunciado, durante sua disputa com o governo, que não pretendia implantar o News Showcase e de ter até ameaçado sair da Austrália, a empresa está lançando nesta sexta-feira (5/2) o produto no país, embora sem a adesão das principais organizações de notícias, que preferiram aguardar a aprovação da nova lei.

O anúncio acontece logo depois de uma reunião entre o primeiro-ministro Scott Morrison e o CEO do Google Sundar Pichai, nessa quinta-feira (4/2). Segundo o The Sidney Herald, o primeiro-ministro não revelou muitos detalhes da conversa, mas disse que “eles entenderam que a Austrália define as regras” em relação ao novo Código de Negociação da Mídia de Notícias em análise no Senado.

A reversão coroou uma semana recheada de boas notícias para o governo australiano nessa questão, na qual a Microsoft tornou-se a primeira grande plataforma a expressar seu apoio público à nova regulamentação. E não apenas isso: ela prometeu investir em melhorias substanciais no Bing “para torná-lo comparável aos concorrentes” se o Google deixar de oferecer no país seu mecanismo de pesquisa, que reponde por mais de 90% do mercado de buscas na Austrália.

Entenda o caso

O novo código, inicialmente voltado para o Google e o Facebook, tem o objetivo de forçar as duas plataformas a entrar em negociações para pagar pelo conteúdo utilizado de organizações de notícias, com um árbitro para decidir o acordo final se nenhum consenso for alcançado. A legislação permite que o governo adicione ou remova plataformas, ou considere que apenas partes da plataforma fiquem sujeitas ao código. Segundo o The Guardian, o Google já fez lobby com sucesso para excluir o YouTube dos efeitos da lei.

Desde o início da tramitação, Google e Facebook tacharam o novo código de impraticável. O Google disse que, sem alterações, as medidas inviabilizariam o modelo de negócio da empresa e ameaçou retirar seu mecanismo de busca da Austrália. O Facebook ameaçou não permitir mais a publicação ou visualização do conteúdo de notícias no país.

Embora neste primeiro momento não esteja sujeita ao novo código, a Microsoft emitiu comunicado na segunda-feira afirmando que seguiria as regras se o seu mecanismo de buscas Bing for submetido aos efeitos da nova legislação, que disse “apoiar totalmente”. O presidente e diretor jurídico da empresa, Brad Smith, confirmou ter conversado com o primeiro-ministro Morrison e elogiou as novas regras:

“O código tenta razoavelmente resolver o desequilíbrio do poder de barganha entre as plataformas digitais e as empresas de notícias australianas. Acreditamos que a proposta legislativa atual representa um passo fundamental em direção a um campo de atuação mais equitativo e um ecossistema digital mais justo para consumidores, empresas e sociedade.”

Em entrevista ao The Guardian, Smith garantiu também que a empresa nunca faria ameaças de retirar alguns dos serviços oferecidos aos consumidores do país:

“Apreciamos o que a Austrália há muito significa para o crescimento da Microsoft como empresa e estamos comprometidos em apoiar a segurança nacional e o sucesso econômico do país.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há duas semanas,a diretora do Google na Austrália assumira diante do Senado uma posição mais dura, que foi considerada uma ameaça de a plataforma sair do país.

A mudança de posição do Google

A nova postura do Google tem o objetivo de fazer com que o maior número possível de editores se inscreva no News Showcase antes que a nova regulamentação entre em vigor. Ela contrasta com a prática, intensificada na semana passada, de colocar nos resultados de busca na Austrália uma caixa amarela com a posição da empresa contrária ao código, que já foi removida.

O News Showcase está sendo lançado na Austrália nesta sexta-feira com a adesão de sete organizações da mídia regional, local e independente, que receberão pelo conteúdo utilizado. Inicialmente estarão à disposição dos usuários 25 títulos, incluindo The Canberra Times, The Illawarra Mercury, The Saturday Paper e o Crikey.

Os editores terão acesso a análises para verificar o desempenho do conteúdo. Em um comunicado na sexta-feira, o Google disse que a empresa trabalha para anunciar em breve mais parcerias com a mídia australiana. Com o lançamento, a Austrália junta-se a outros doze países que oferecem o serviço, como Brasil, Argentina, Reino Unido, Canadá e Japão.

O Google informa que o News Showcase já oferece mais de 450 títulos ao redor do mundo, incluindo um acordo global com a Reuters e parcerias com os três principais jornais diários da França anunciados no mês passado. O investimento no projeto soma 1 bilhão de dólares.

 

Kate Beddoe, Head of News, Web & Publishing Products Partnerships do Google para a região da Ásia Pacífico, ressalta a importância da iniciativa:

“O News Showcase contribui para um modelo de negócios sustentável e ajuda a aprofundar o relacionamento com os leitores. Os editores recebem uma taxa mensal definida para selecionar conteúdo e oferecer aos leitores mais insights sobre as histórias que importam.

Os painéis exibem uma visão aprimorada dos artigos, permitindo que os usuários mergulhem mais fundo em uma matéria, levando o leitor diretamente ao site do veículo e permitindo que veja as atualizações várias vezes por dia. Em alguns casos, é dado acesso a artigos por trás do acesso pago, para que os leitores possam perceber o valor de se tornarem assinantes.

Nosso investimento neste produto busca ajudar a garantir um futuro sólido para as notícias australianas e reflete nosso compromisso contínuo com a sustentabilidade financeira da indústria de notícias.”

 

Principais organizações preferem aguardar a nova lei

Duas das maiores organizações de notícias da Austrália, a News Corp e a Nine, estão entre as que preferiram aguardar a aprovação do novo código para negociar com o Google.

A News Corp, de Rupert Murdoch, opera cerca de 150 títulos na Austrália, entre eles o The Australian e onews.com.au, principal site de notícias do país. A Nine publica o Sydney Morning Herald, o Age e a Australian Financial Review. Um porta-voz da Nine divulgou a posição da empresa:

“Isso é como os monopólios agem. Eles fazem uma oferta, na forma do Google News Showcase, mas não se dispõem a negociar. Tem que ser tudo em seus termos, e essa não é uma abordagem da qual participaremos. Apoiamos a legislação que o governo está propondo como a melhor forma de garantir um pagamento justo por nosso conteúdo.”

Tech-xit e a ideia de uma rede alternativa caso não haja acordo 

Quando a temperatura das negociações começou a subir, um think tank australiano propôs a criação de uma rede alternativa para substituir o Google e o Facebook, administrada pelo governo por meio da emissora pública ABC. 

A proposta veio do Centro para Tecnologia Responsável do Australia Institute, no relatório cujo nome − Tech-xit: pode a Austrália viver sem Google e Facebook? − faz alusão ao Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia.

O relatório do Australia Institute diz que identificou sérios riscos para as empresas, serviços governamentais e consumidores diante da ameaça do Google e do Facebook de reduzir ou fechar serviços na Austrália caso o governo federal prossiga com os planos de cobrá-los pelo conteúdo de notícias. 

O tom é nacionalista, mostrando que a disputa assumiu ares de ponto de honra para o governo. No statement sobre o trabalho, Peter Lewis, diretor do Centro de Tecnologia Responsável, afirmou: 

“A resposta do Google e do Facebook à proposta de código publicada pelo governo expôs nosso excesso de confiança neles. Como o poder das principais plataformas continua a crescer, é essencial que a Austrália tenha planos para assegurar nossa soberania digital”. 

O documento indaga: 

  • Confiamos no Google e no Facebook e concordamos com sua oposição a uma ação rigorosa do governo australiano?
  • Nossa experiência online ficará pior se os titãs da tecnologia decidirem que o código proposto pelo governo é desfavorável para eles na Austrália?
  • Qual seria o impacto sobre os australianos que contam com produtos e serviços do Google e do Facebook?

Entre as recomendações formuladas, a mais radical seria a criação de uma rede social de propriedade e de propósito públicos. Ela não rastrearia nem monetizaria dados dos usuários e seria hospedada pela Australian Broadcast Corporation (ABC). 

Pode ser que não venha a ser implantada, diante da posição mais flexível adotada pelo Google. Mas mostrou como o país está disposto a defender a nova lei e a sustentabilidade da indústria jornalística.

Leia mais sobre as iniciativas de regulação de plataformas digitais no Reino Unido, Europa, Estados Unidos e Austrália, e as recomendações feitas por um grupo de especialistas de vários países.