Durante a entrevista com a apresentadora Oprah Winfrey que abalou o Reino Unido ao lado de sua mulher Meghan Markle, o Príncipe Harry disse  que seu maior medo era de que a história de sua mãe Diana se repetisse com Meghan. Não foi a primeira vez que disse isso. Numa declaração postada em seu site em outubro de 2019, para condenar o que classificava de “propaganda implacável” contra Meghan, ele acusou “forças poderosas” da imprensa pela perda de sua mãe. Na ocasião ele escreveu:

“Eu vi o que acontece quando alguém que amo é transformado em mercadoria a ponto de não ser mais tratado ou visto como uma pessoa real. Perdi minha mãe e agora vejo minha esposa sendo vítima das mesmas forças poderosas.”

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Além disso, desde o momento em que Meghan Markle ficou noiva do Príncipe Harry, muitas semelhanças vêm sendo traçadas com Wallis Simpson, por quem o rei Edward VIII (tio-bisavô de Harry) abdicou ao trono em 1936.

Ambas são divorciadas americanas que capturaram o coração de um príncipe britânico e se tornaram duquesas reais no exílio (embora Meghan de forma auto-imposta).

Embora o casal diga não ser essa a intenção, a verdade é que a estratégia de dar entrevistas com poder de repercussão para abalar a Coroa confirma um padrão repetido a cada 25 anos: Meghan agora, Diana em 1995 e Wallis em 1970. 

 

Meghan usou bracelete de Diana durante entrevista

Para quem não quer repetir a história, um detalhe chamou muita atenção: durante a entrevista, Meghan usou no pulso esquerdo uma pulseira de diamantes que era de Diana. A joia foi usada pela Princesa em uma de suas últimas aparições públicas em 1997, dois meses antes de sua morte, em uma apresentação do Lago dos Cisnes no Royal Albert Hall. Trata-se da mesma pulseira da qual Harry já tinha mandado tirar duas pedras para fazer o anel de noivado de Meghan.

A especialista em moda do jornal britânico Daily Telegraph, Sonia Haria, enfatiza que o delineador preto usado por Meghan “lembra o que Diana usou em sua famosa entrevista de 1995”:

“Assim como na de Diana, adiciona um pouco de peso e drama e atrai toda a atenção para os olhos, que contêm grande parte da emoção nessas grandes entrevistas”.

A história também se repete com Oprah: há 25 anos, ela quase conseguiu ser a entrevistadora de Diana, que acabou se decidindo pelo programa Panorama, da BBC, por ter sido enganada e manipulada à época, conforme sabe-se agora e explanado neste artigo de MediaTalks.

Desta vez, depois de ter comparecido ao casamento de Harry e Meghan em 2018, Oprah foi a escolhida. Soube-se depois que Meghan e Oprah tinham se encontrado apenas uma vez. No entanto, a mãe de Meghan foi convidada para a casa de Winfrey para uma sessão de ioga antes da cerimônia, e o casal tornou-se claramente mais próximo dela nos anos desde então.

Valeu a espera: a empresa de Oprah que produz o programa faturou 7 milhões de dólares com a entrevista. Só no Reino Unido faturou mais 1 milhão de dólares pelos direitos de exibição para a ITV, que vai retransmitir no horário nobre desta segunda (8). Inicialmente anunciada com 90 minutos, a edição final foi estendida para 120 minutos, permitindo a inserção de mais revelações – e anúncios. A empresa de Oprah anunciou que nada foi pago a Harry e Meghan e nem foi feita nenhuma doação à sua instituição filantrópica.

Penteado de Meghan lembrou o de Wallis

Ao contrário de cachos esvoaçantes como em outras aparições, Meghan optou por um penteado mais sério e maternal, com o cabelo repartido ao meio, lembrando o estilo de Wallis em um retrato tirado no ano em que Edward VIII desistiu de seu trono para casar com ela.

O vestido escolhido por Meghan – um Armani de £ 3.300,00 (cerca de R$ 26 mil) com flores de lótus que simbolizam uma nova fase, de renascimento – também lembra o da foto de Wallis.

Assim como Oprah disse ter tentado entrevistar Meghan ao longo dos últimos anos, o mesmo aconteceu com Kenneth Harris para persuadir o ex-rei da Inglaterra e sua esposa a falarem. A entrevista foi ao ar em 27 de março de 1970 pela BBC, e triplicou a audiência média de quatro para doze milhões de espectadores.

Edward tinha mais motivos do que Harry para atacar: além de ter abdicado do título de Rei, perda muito maior do que os títulos de Harry, a Família Real se recusou a sequer conhecer a mulher que se tornaria sua esposa. Seu relacionamento com o irmão Bertie, que assumiu o trono após sua abdicação, se deteriorou e ele foi forçado a viver no exílio. A falecida rainha-mãe, avó da atual Rainha Elizabeth, desprezava Wallis, referindo-se a ela como “aquela mulher”. E mesmo assim, nem em sua última entrevista e nem até sua morte dois anos depois, ele falou mal publicamente de sua família.

O constrangimento de Edward é evidente ao longo da entrevista, olhando constantemente para as mãos, estudando as unhas, remexendo-se. É  Wallis que irradia humor. Questionada por Harris se ela ainda lembrava da primeira coisa que Edward lhe teria dito, ela responde com um timing cômico:

“Não. Não me lembro nem das últimas coisas que ele me disse.” Mais adiante, quando perguntada sobre o segredo de parecer mais jovem, ela responde: “Não encontrei ainda!”

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Talvez o momento mais tocante seja quando Wallis considera que a chave para se sentir jovem é a felicidade. “Temos sido muito felizes”, disse ela a certa altura. Edward segura a mão dela em confirmação e concorda “nós temos”. Nesse momento, é revelado o aspecto mais importante da entrevista e o que todos queriam saber: a abdicação teria valido a pena?

Quando Harris pergunta ao casal se eles tinham algum arrependimento, Wallis responde “sobre certas coisas eu gostaria que pudesse ter sido diferente. Naturalmente, passamos por alguns momentos difíceis. Quem não gostou?”, disse a mulher que se tornou a mulher mais odiada do mundo durante a crise de abdicação.

No final da entrevista, Harris pergunta a Edward se ele se arrepende de não ter permanecido rei. Após outra pausa, a câmera se move para um close de seu rosto. “Não,” ele diz. “Eu gostaria de ter continuado, mas sob minhas condições. Portanto, não tenho nenhum arrependimento. Mas tenho grande interesse em meu país – meu país que é a Grã-Bretanha – sua e minha terra.”

Onde as comparações terminam

Victoria Ward, do Daily Telegraph, ressalta que a tentativa de Harry de comparar a experiência de Meghan com a de sua mãe não se sustenta, por haver poucas semelhanças entre as duas situações.

Enquanto Diana era implacavelmente perseguida por paparazzi, Harry e Meghan nunca correram nenhum perigo físico e jamais foram perseguidos como celebridades nem no Reino Unido e nem nos Estados Unidos onde escolheram viver. Para Ward, a comparação serve para dar a ideia de que Harry teve de “resgatar” Meghan da família real para encobrir o fato de que foi ela quem decidiu mudar para sua Califórnia natal.

Quanto à comparação de Meghan com Wallis, Ward ressalta que a última tentou até o fim restabelecer pontes com a família real, tendo inclusive escrito em vão para a Rainha-mãe pedindo para que aceitasse rever seu filho. Já Meghan na entrevista a Oprah adotou o caminho oposto, ao dizer que tanto ela como Harry já perderam muito e daqui por diante terão pouco a perder.

Até agora, a monarquia britânica resistiu bem a todas as entrevistas, com a Rainha Elizabeth à frente e com experiência acumulada para gerenciar mais esta. Daqui a 25 anos, se o padrão se repetir com uma nova entrevista bombástica, como será o desfecho, com um novo monarca à frente?

 

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