Um relatório da organização Repórteres sem Fronteiras (RSF) publicado no Dia Internacional da Mulher (8 de março) mostra como o sexismo tem afetado a atividade jornalística em todo o mundo. A RSF entende como sexismo todas as formas de violência sexual e de gênero, entre elas discriminação, insultos, assédio sexual, toque, agressões verbais e físicas de natureza sexual, ameaças de estupro ou estupro. O documento revela a extensão dos riscos de violência sexual e de gênero enfrentados por mulheres jornalistas e seu impacto na sociedade.

“O jornalismo pode ser uma profissão perigosa. Mas ser mulher e jornalista, muitas vezes, significa correr um risco duplo: aos perigos inerentes à profissão somam-se os riscos de ser exposta à violência de gênero ou sexual”, alerta o relatório.

A pesquisa foi feita com base em respostas de profissionais de 112 países, em cinco continentes. De todas as nações que participaram, 40 foram consideradas perigosas ou muito perigosas para as mulheres na profissão. O Brasil está na categoria de nação perigosa.

“O perigo não está à espreita das jornalistas apenas nos ambientes clássicos de reportagem, ou nos novos campos virtuais na internet e nas redes sociais. Está também onde elas deveriam sentir-se seguras: em suas redações”, afirma a RSF. 

A pesquisa foi abrangente, envolvendo redações de cinco continentes. Os participantes receberam um questionário com 30 perguntas. Mais homens do que mulheres responderam.

Há três anos a entidade havia publicado seu  primeiro relatório apontando dificuldades enfrentadas por jornalistas homens e mulheres que cobrem temas relacionados aos direitos das mulheres. No novo documento, os resultados confirmam as tendências percebidas pelas equipes da RSF: a internet tornou-se o lugar mais perigoso para as jornalistas, conforme relato de 73% dos participantes.

Um exemplo citado é o da colunista e jornalista investigativa indiana Rana Ayyub, que afirma receber ameaças de estupro e morte diariamente nas redes sociais.

Imagem: relatório RSF

Depois da internet, 58% dos participantes indicam o local de trabalho como o lugar onde foram cometidas as violências de gênero, a maioria por parte de chefes.

“Essa percepção foi reforçada pela disseminação do movimento #MeToo pelo mundo e pelo fato de que as jornalistas agora ousam denunciar casos de agressão ou de assédio sexual, como nos Estados Unidos, no Japão ou na Índia”, diz o relatório. 

Mas ainda há muito a ser feito, pois as medidas para reverter o quadro estão longe do ideal, como apurou a RSF. A pesquisa aponta que em 61% dos casos denunciados nada foi feito. E que apenas um de cada dez agressores perdeu o emprego.

A pesquisa identificou casos contra jornalistas até em países sem tradição de violência contra mulheres. Sofie Linde, apresentadora dinamarquesa de um programa de TV de sucesso, declarou ter sido vítima de assédio. Embora a Dinamarca seja geralmente considerada um modelo para as questões de gênero e paridade, a denúncia dirigida a um alto funcionário da televisão pública chocou o país.

“Temos a obrigação imperiosa de defender o jornalismo com todas as nossas forças, diante de todos os perigos que o ameaçam, e as agressões e intimidações de cunho sexual e de gênero estão entre estes perigos”, escreveu o secretário-geral da RSF Christophe Deloire, no prefácio do relatório. 

“É inconcebível que as jornalistas corram risco duplo e que tenham que se defender numa frente adicional, tanto fora quanto dentro das redações.

As jornalistas que cobrem esporte, política e direitos da mulher são as mais vulneráveis à violência, segundo apurou a RSF. Um triste exemplo é o de Nouf Abdulaziz al-Jerawi, jornalista saudita presa por denunciar o sistema de tutela masculina em seu país, que foi torturada com choques elétricos e abusada sexualmente durante sua detenção.

Brasil em destaque 

O Brasil é citado no relatório, com destaque para o preço alto pago pela jornalista Patrícia Campos Mello por sua denúncia sobre o uso ilegal de fundos privados pelo presidente Bolsonaro para financiar campanhas de desinformação. O documento aponta que ela foi alvo de uma campanha de assédio cibernético extremamente violenta depois de acusada por Jair Bolsonaro e seus filhos ocupantes de cargos eletivos de ter “extorquido”  informações em troca de favores sexuais.

A RSF também elogiou a iniciativa de cinquenta jornalistas esportivas brasileiras que lançaram o movimento #DeixaElaTrabalhar, para denunciar a prática de beijos forçados por parte de torcedores durante a cobertura de eventos esportivos ao vivo.

Na França, quase 40 jornalistas do diário L’Equipe uniram-se para apoiar suas colegas após revelações de assédio na editoria de esporte.

Em seu relatório, a RSF examina o impacto da violência sobre o próprio jornalismo e como, na maioria das vezes, o trauma sofrido leva ao silêncio e reduz o pluralismo das informações.

Além do estresse, da angústia e dos medos, a violência sexual e de gênero tem levado as jornalistas a encerrar temporária ou mesmo permanentemente suas contas nas redes sociais, consequência apontada por 43% dos participantes. Isso quando elas próprias não se autocensuram (48%), mudam de editoria (21%), ou até mesmo se demitem (21%)”, registrou a pesquisa. 

Medo de levar as queixas adiante

Vergonha, temor de perder o emprego ou de ser prejudicada na carreira são algumas das razões que impedem as mulheres em geral de levar adiante queixas de assédio ou de perseguição. Com as jornalistas não é diferente, apesar de seu acesso maior, em relação a outras profissionais, a informações e a instâncias capazes de tomar providências. O número das jornalistas vítimas de violência sexual e de gênero que não prestaram queixa chega a alarmantes 65%. E o pior: quase metade delas diz que agiu assim porque não adiantaria nada reclamar.

Minorias sofrem ainda mais 

O estudo da RSF demonstra que a violência sexual e de gênero é agravada nos casos das  jornalistas que representam minorias, como negras, estrangeiras, muçulmanas, lésbicas, bissexuais e trans. Insultos baseados na raça, preferência sexual e religião são os mais preponderantes.

Impacto sobre a saúde física e mental 

A RSF examinou também os efeitos da violência sobre as mulheres jornalistas, que provoca sequelas características de estresse pós-traumático, como distúrbios do sono, dificuldade de concentração e estresse emocional.  E também enxaquecas, dores de estômago e ansiedade severa.

Uma longa lista de recomendações 

Para reduzir esse tipo de violência, a RSF inclui em seu relatório uma série de recomendações destinadas a jornalistas, redações e governos.

Mais espaço para direitos da mulher e denúncia da violência 

  • Dedicar espaço aos direitos das mulheres e à denúncia da violência de gênero de forma permanente e não apenas em datas ou eventos dedicados a esses temas.
  • Assegurar proporção igual de homens e mulheres entre especialistas e convidados para programas de debate e fontes citadas em reportagens.
  • Eliminar estereótipos sexuais e de gênero que possam ser transmitidos através da linguagem e da iconografia utilizadas, da proporção de mulheres e homens representados como vítimas,  e da proporção de mulheres e homens identificados de acordo com o status familiar.
  • Incentivar a criação do posto de gerente editorial responsável pelas questões de gênero (“editores de gênero”) nas redações.

Mais segurança e vigilância 

  • Desenvolver, dentro das redações, materiais de divulgação e ferramentas destinadas a informar sobre todos os tipos de violência de gênero e sobre como reagir a eles (célula de escuta, linha telefônica de ajuda para mulheres vítimas de violência, cartazes, intervenções, lista de associações que trabalham com o tema, pessoa de contato no veículo).

 

Melhores condições de trabalho

  • Conscientizar gestores e equipes sobre os riscos enfrentados pelas jornalistas e implementar dispositivos de emergência para garantir um sistema de alerta, apoio e proteção para mulheres vítimas de assédio ou qualquer tipo de violência sexual ou de gênero.
  • Garantir o equilíbrio entre a vida profissional e privada para não penalizar jornalistas que desejem ter ou que tenham filhos (existência de esquemas de flexibilidade no trabalho, acesso a licença parental, mecanismos que facilitem o acolhimento de crianças etc.).
  • Garantir salários iguais em todos os níveis e alcançar paridade nas funções editoriais e de gestão, bem como nos cargos de maior visibilidade (como colunistas, comentaristas, apresentadores, entre outros).
  • Capacitar colaboradores em cargos de gestão para a detecção de ataques e o suporte às vítimas de violência.
  • Facilitar reuniões e intercâmbio de boas práticas entre mulheres jornalistas para permitir melhor assistência mútua diante desses problemas.

 

Medidas para controlar violência online 

  • Treinar as jornalistas sobre a questão do assédio cibernético de forma a permitir-lhes a adoção de reflexos e comportamentos adequados em tais situações por exemplo, colaborando com os serviços competentes das plataformas em que atuam os trolls ou assediadores.
  • Instaurar um sistema de emergência interno para casos de ameaças ou ataques sexistas virtuais tanto em termos de moderação dos conteúdos em questão, como de apoio psicológico e/ou jurídico à jornalista vítima.

Riscos para o trabalho em campo 

  • Para que o risco não seja uma desculpa para barrar o acesso das jornalistas ao trabalho de  campo, incluir uma perspectiva específica para mulheres jornalistas no treinamento de segurança dado a profissionais que atuam em áreas que oferecem perigo.
  • Garantir maior comunicação entre a redação e as jornalistas em missões externas para reduzir entre outras coisas o risco de violência sexual ou de gênero.
  • Colocar à disposição um documento interno de consulta que compile as informações mais recentes sobre a área de atuação, com feedback dos últimos que estiveram na região, dados práticos do país ou região em questão, listas de verificação e tutoriais.

Orientações para as mulheres

  • Em caso de ameaças, ataques ou assédio, notificar os superiores ou o responsável por lidar com essas questões e/ou registrar uma ocorrência.
  • Fazer capturas de tela, imprimir, coletar e guardar todas as evidências de assédio, insultos, ameaças ou agressões recebidos nas suas caixas de mensagens pessoais ou profissionais e nas redes sociais.
  • Antes de sair para uma reportagem em um país ou região diferente, informar-se sobre as práticas culturais e sociais do país, bem como sobre como são vistas as mulheres jornalistas e a situação de segurança no local.
  • Avaliar minuciosamente os riscos antes de ir a campo, e privilegiar o trabalho em equipe nas áreas de risco.
  • Transmitir os contatos das pessoas no local (colegas de profissão) a colegas de confiança ou aos chefes.
  • Contra o assédio cibernético:
    • Adotar regras essenciais de segurança digital.
    • Pedir a uma pessoa de confiança para gerenciar suas redes sociais se estiver sendo atacada. Ela poderá fazer uma triagem dos seus feeds, apagar insultos, bloquear e denunciar perfis agressores.
    • Dependendo da intensidade do assédio, mude suas contas para o modo de acesso privado enquanto durar o ataque.

Recomendações para as plataformas digitais

  • Desenvolver campanhas de comunicação e conscientização pública sobre violência online visando especificamente jornalistas, sobretudo mulheres.
  • Tornar mais fácil para as vítimas de ameaças e ataques online, em particular mulheres jornalistas, relatar a violência criando um canal de alerta de emergência.
  • Colaborar ativamente com as autoridades judiciais nas investigações sobre violência cibernética contra jornalistas.
  • Lutar contra as campanhas coordenadas de assédio e as “fábricas de trolls”, em parte responsáveis por essa violência online, aumentando o número de moderadores humanos.

Recomendações aos governos

  • Honrar seus compromissos com a liberdade de imprensa, incluindo a garantia do direito das jornalistas de exercerem seu trabalho com segurança, em conformidade com as normas internacionais, e o direito de qualquer jornalista de trabalhar com temas relacionados aos direitos das mulheres.
  • Reconhecer que ameaças e outras formas de abuso online contra as jornalistas e profissionais da mídia constituem um ataque direto à liberdade de expressão e à liberdade dos meios de comunicação.
  • Incentivar a criação do posto de Representante Especial do Secretário-Geral das Nações Unidas para a Segurança dos Jornalistas, que assegurará que os governos respeitem suas obrigações no tocante à eliminação da violência contra profissionais de imprensa, em particular contra as jornalistas.
  • Garantir que haja legislação adequada para responder de maneira eficaz à violência de gênero, especialmente contra as jornalistas. A violência contra jornalistas deve ser considerada uma circunstância agravante do crime, tendo em conta o seu impacto no direito dos cidadãos à informação. Uma legislação adequada também é necessária para combater o assédio online, assim como procedimentos de recurso ou vias legais em caso de restrições abusivas à liberdade de expressão online.
  •  Garantir que o sistema penal esteja preparado para receber, processar e julgar casos de violência de gênero, especialmente contra as jornalistas, seja física ou virtualmente, para assegurar que os casos de violência de gênero e assédio online sejam sistematicamente investigados e que os autores sejam processados e condenados.
  • Promover atividades que favoreçam a igualdade e a diversidade de gênero nos meios de comunicação e apoiar iniciativas de capacitação que enfoquem a segurança de mulheres jornalistas.
  • Para países que oferecem formas de auxílio à imprensa, instituir incentivos para encorajar as empresas de mídia a se comprometerem com a mudança, a se equiparem com ferramentas para avaliar e medir a evolução de suas práticas mediante uma carta de compromisso pela igualdade de gênero em suas estruturas, além de recursos de formação para sensibilizar as suas equipes quanto à paridade e à igualdade.
  • Reforçar a responsabilidade das plataformas online para garantir o direito à liberdade de expressão de seus usuários e sua segurança contra discursos de ódio e assédio online.
  • Conscientizar legisladores e atores do sistema de justiça criminal sobre a violência online contra as mulheres, em particular as jornalistas.
  • Promover a educação em segurança digital, com foco na conscientização dos internautas sobre o impacto do assédio online e as consequências legais para quem os comete.
  • Criar comitês nacionais para a segurança de jornalistas que incluam representantes do Ministério Público, da polícia e das associações de jornalistas, para verificar se todos os ataques e ameaças são devidamente investigados e implementar ações preventivas ou de proteção, quando necessárias, para fortalecer a segurança dos jornalistas.

A pesquisa completa pode ser vista aqui


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