Na semana em que ataques em Atlanta culminaram com a morte de seis mulheres asiáticas, a pressão contra a nomeação da nova editora-chefe da Teen Vogue chegou a tal ponto que ela foi obrigada a renunciar antes de assumir o cargo.


Alexi McCammond
, de 27 anos, apontada em 2019 como a jornalista emergente do ano pela Associação Nacional de Jornalistas Negros, anunciou sua decisão nesta quinta-feira (18/3) devido à polêmica criada em torno das mensagens que ela postara no Twitter contra asiáticos em 2011, quando tinha 17 anos e era caloura na Universidade de Chicago.

Após sua nomeação, os tweets da então adolescente ressurgiram em meio à onda de preconceito e racismo contra asiáticos que varre os Estados Unidos desde o início da pandemia. Só ao longo do ano passado foram relatados 2.500 incidentes contra asiáticos no país, na esteira da retórica do ex-presidente Trump e suas acusações ao “vírus da China”.

A Teen Vogue tem 11,6 milhões de leitores em sua versão digital e é a principal publicação da Condé Nast para adolescentes, que a posiciona como “o guia da jovem para salvar o mundo”, tendo justamente entre seus objetivos “a criação de um ambiente mais inclusivo, amplificando as vozes dos não ouvidos”.

Caso levanta questão do impacto de postagens antigas no desenvolvimento da carreira

No ano passado, McCammond consolidou-se como estrela em ascensão com a cobertura da campanha presidencial de Joe Biden para o site político Axios, além de ter contribuído para a NBC News e a MSNBC.

Em 2019, quando as mensagens vieram à tona pela primeira vez, ela já havia deletado e se desculpado pelos tweets. Na ocasião, escreveu:

 “Hoje me lembrei de alguns tweets insensíveis do passado e lamento profundamente quem ofendi. Desde então, apaguei esses tweets, pois eles não refletem minhas opiniões ou quem eu sou hoje.”

O caso levanta uma série de questões, entre elas o impacto na carreira futura causado por postagens da adolescência.

Outro ponto ressaltado é a justiça da punição depois de o autor reconhecer o erro e desculpar-se por ele. Os críticos de McCammond alegam que ao se desculpar ela classificou suas postagens de insensíveis, ofensivas e idiotas, mas sem reconhecê-las como racistas.

Os tweets que geraram a controvérsia

Foram três os tweets deletados e recuperados que geraram a polêmica. No primeiro, publicado depois de retornar de uma festa em setembro de 2011, McCammond disse que estava pesquisando no Google para descobrir como evitar acordar com “olhos asiáticos” e inchados.

Em outubro, ela chamou o assistente de um professor de “estúpido asiático” por ter lhe dado nota 2 num teste de química, riscado seu trabalho e não lhe ter explicado o erro que cometera.

No terceiro, em novembro, ela escreveu: “superada por um asiático”.

Em meio à polêmica e antes de renunciar ao cargo, McCammond tuítou na quarta-feira (17/3):

“Dediquei minha carreira a dar voz aos que não têm voz, e a última coisa que quero é fazer que alguém − especialmente nossos irmãos e irmãs asiáticos em particular – se sinta mais invisível. Eu sei que historicamente a comunidade asiática foi deixada de fora ou ignorada em conversas críticas sobre raça, racismo, justiça e igualdade. Estou determinada a contribuir para mudar isso. ”

McCammond já foi notícia outras duas vezes. Em novembro de 2019, recebeu um pedido de desculpas do ex-jogador de basquete Charles Barkley por ter dito a ela durante uma conversa com jornalistas sobre política: “Eu não bato em mulheres, mas se batesse, bateria em você”. O caso aconteceu depois que McCammond o confrontou, como repórter do Axios, por ter anunciado apoio a um dos candidatos ao governo de Massachusetts para em seguida mudar de opinião quando um dos apoiadores do outro candidato passou a participar da conversa.

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Mais recentemente, em janeiro deste ano, McCammond voltou às manchetes depois que a People e o Politico publicaram artigos divulgando seu relacionamento amoroso com o vice-secretário de imprensa da Casa Branca, T J Ducklo. O caso ganhou grande repercussão porque Ducklo, para tentar evitar a publicação da matéria de seu envolvimento com uma jornalista política, ameaçou Tara Palmieri, repórter do Político, que ligara para McCammond para que esta se manifestasse.

Ducklo tentou intimidar Palmieri por telefone: “Vou destruir você”, acrescentando que arruinaria sua reputação se ela insistisse em ir adiante. Durante a ligação Ducklo acusou Palmeri de estar com ciúmes de seu relacionamento com McCammond. Depois que as ameaças se tornaram públicas, Ducklo foi suspenso por uma semana e decidiu renunciar em fevereiro.

Desistência ocorre em menos de uma semana após a nomeação

O período entre o anúncio da contratação e a desistência durou menos de uma semana. A nomeação ocorreu no dia 12 e McCammond só começaria na nova função no dia 24.

A iniciativa foi vista incialmente como um esforço da Condé Nast pela diversidade. Mas logo a situação se reverteu, quando a jornalista Diane Tsui compartilhou no Instagram os tweets que McCammond havia apagado:

“Estou cansada das grandes organizações de mídia fingindo se importar com a diversidade e a inclusão. E isso é especialmente um tapa na cara, considerando o que aconteceu com os asiático-americanos no ano passado.”

A reação da redação contra a futura chefe

No fim de semana seguinte ao anúncio, mais de 20 funcionários da Teen Vogue assinaram uma carta à diretora de conteúdo da Condé Nast, Anna Wintour, e ao CEO Roger Lynch registrando sua consternação:

“Em um momento de violência antiasiática historicamente alta (…), nós, como equipe da Teen Vogue, rejeitamos totalmente esses sentimentos. Temos esperança de que uma conversa interna venha a ser frutífera para manter a integridade concedida a nós por nosso público.”

McCammond tentou contemporizar a situação, com novo pedido de desculpas, desta vez direcionado à futura equipe:

 “Lamento ter usado uma linguagem tão ofensiva e indesculpável. Em qualquer momento da minha vida, é totalmente inaceitável. Ouvi dizer que você está magoado, com raiva, confuso e cético sobre como seguiremos em frente a partir daqui. Eu provavelmente também estaria se fosse você. “

O pedido de desculpas não sensibilizou os colegas e nem a Associação de Jornalistas Asiático-Americanos, que pediu à Conde Nast que rescindisse a nomeação de McCammond “para garantir seu compromisso com as comunidades e funcionários da América Asiática e das Ilhas do Pacífico”.

Ex-editora falou na TV que posts eram indefensáveis

Na quarta-feira (17), a ex-editora-chefe da Teen Vogue, Elaine Welteroth, apareceu no The Talk da CBS condenando os tweets de McCammond:

Os tweets e os sentimentos por trás deles eram racistas, abomináveis ​​e indefensáveis, ponto final. E eu acho que em um momento como este, quando há um apelo à responsabilização em torno do sentimento anti-asiático e contra as ações racistas e violentas contra os asiáticos, precisamos nos manifestar.

Pressão tornou-se insustentável com suspensão de publicidade da Ulta Beauty

A gota d’água veio com a decisão da Ulta Beauty, gigante dos cosméticos de US$ 7,4 bilhões, de suspender sua verba de publicidade na Vogue Teen desde que o caso explodiu.

O Daily Beast relatou na quarta-feira quea  Ulta Beauty havia “pausado” uma campanha publicitária estimada na casa dos milhões de dólares por causa da polêmica em torno da contratação de McCammond.

Em 2019, a Ulta Beauty foi acusada de racismo pelos próprios funcionários, por promover discriminação na composição das equipes de suas lojas. Isso deve ter motivado sua reação imediata no presente caso. Um porta-voz da empresa disse ao Daily Beast:

“Diversidade e inclusão são valores fundamentais na Ulta Beauty − e sempre foram. Nosso investimento atual na Teen Vogue foi suspenso enquanto trabalhamos com a Condé Nast para avaliar a situação e determinar os próximos passos em relação à nossa parceria.”

A decisão da saída

Diante desse cenário, McCammond decidiu tornar pública sua decisão de desistir do cargo com uma postagem no Twitter:

“Meus tweets anteriores obscureceram o trabalho que fiz para destacar as pessoas e as questões que me interessam − questões que a Teen Vogue trabalhou incansavelmente para compartilhar com o mundo −; então, Conde Nast e eu decidimos nos separar.

Eu não deveria ter tweetado o que escrevi e assumo total responsabilidade por isso. Reconheço meu trabalho e meu crescimento nos anos que se seguiram, e redobro meu compromisso de crescer nos anos que virão como pessoa e como profissional.”

O posicionamento da Condé Nast

A Condé Nast reconheceu que ao fazer a contratação tinha conhecimento sobre os tweets e que seus executivos consideraram que ela tinha se desculpado por eles.  Em um memorando, Stan Duncan, responsável pelo RH da Condé Nast, disse que McCammond foi “direta e transparente” sobre as postagens.

“Dado seu reconhecimento anterior dessas postagens e suas sinceras desculpas, além de seu notável trabalho no jornalismo elevando as vozes das comunidades marginalizadas, estávamos ansiosos para recebê-la em nossa equipe. Além disso, tínhamos esperança de que Alexi fornecesse uma perspectiva e uma visão pouco representada na mídia.”

 O CEO da Condé Nast afirmou em um comunicado aos funcionários:

 “Um em cada dez de nós na Condé Nast nos Estados Unidos identifica-se como asiático e, como empresa, somos solidários com as comunidades asiáticas em todo o mundo. Rejeitamos o ódio, o racismo, a injustiça, o bullying e a violência de qualquer tipo.”

Diretora Anna Wintour assumiu erro de falta de oportunidades aos negros

 A contratação de McCammond teria ajudado a Condé Nast a fazer frente às próprias acusações de falta de oportunidades aos negros. No ano passado, depois da publicação da Vogue de setembro celebrando a cultura negra na esteira do movimento Black Lives Matters, o New York Times publicou no mês seguinte matéria perguntando se o impulso de diversidade de Anna Wintour não teria chegado tarde demais, depois de ter sido acusada por funcionários de promover um local de trabalho que marginalizava as mulheres negras.

Wintour, inspiradora da personagem de Meryl Streep no filme “O Diabo Veste Prada”, foi editora-chefe da Vogue desde 1988 e a partir de 2013 tornou-se diretora artística da Condé Nast, passando a responder pela liderança editorial de todos os seus títulos. O jornal reproduziu o e-mail interno que Wintour enviara em junho do ano passado à equipe editorial:

 “Quero dizer claramente que sei que a Vogue não encontrou maneiras suficientes de elevar e dar espaço aos editores, escritores, fotógrafos, designers e outros criadores negros. Também cometemos erros ao publicar imagens ou histórias que nos magoaram ou foram intolerantes. Assumo total responsabilidade por esses erros.”

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