A entrevista de Harry e Meghan a Oprah Winfrey, em que o casal acusou os tabloides britânicos de racistas, continua provocando ondas de choque sobre o jornalismo do país. Só que desta vez quem reclama de má conduta não são o duque e a duquesa de Sussex, e sim o Daily Mail, um dos famigerados tabloides sensacionalistas tão criticados por eles. 

O jornal está em guerra com a Harpro, produtora de Winfrey, por causa de imagens exibidas durante a entrevista para ilustrar a tese de racismo por parte da imprensa britânica. O problema é que foram apresentadas montagens utilizando trechos que não eram do Daily Mail mas foram associadas ao título. E também matérias reais, porém manipuladas com o objetivo de mudar o sentido original.  

A história foi revelada pelo Daily Telegraph, um dos principais diários do país (e não associado ao Daily Mail). O jornal apurou que um terço das manchetes escolhidas para demonstrar racismo eram provenientes de revistas de fofoca estrangeiras. 

Há pelo menos dois casos em que as reportagens originais reais eram na verdade notícias sobre declarações racistas feitas por terceiros. Mas foram montadas sugerindo serem a opinião do jornal, ou uma opinião não contestada por ele. 

A manipulação não ficou apenas nos tabloides. O próprio Telegraph questionou o uso de um título seu de forma editada. O The Guardian também foi outro que teve manchetes manipuladas, embora esteja longe de ser considerado um jornal sensacionalista. 

Após a revelação, a Associated Newspapers, dona do Daily Mail, fez uma queixa formal à CBS, emissora americana que exibiu a entrevista. Reclamou da “distorção deliberada” e exigiu que as imagens fossem suprimidas.

A CBS ignorou o pedido e manteve os recortes. Já a ITV, rede britânica que comprou os direitos da entrevista de Harry e Meghan para exibição no país, atendeu ao pedido e removeu quatro das manchetes sinalizadas. 

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A Associated Newspapewrs, dona do Daily Mail perdeu este ano um processo que Meghan moveu contra ele, reclamando da publicação de trechos da carta escrita por ela ao pai pelo Mail On Sunday, outro de seus títulos. 

A resposta do advogado 

Diante da recusa de um lado e insistência de outro, o caso escalou para a área jurídica. Na semana passada, o advogado americano Charles L.Bacbock, que defende os interesses de Oprah, respondeu oficialmente ao pedido da Associated Newspapers. 

Em sua carta, ele começa assegurando o direito de Meghan e Harry expressarem-se contra os tabloides − o que não está em questão na reclamação feita a respeito da montagem.

Segue dizendo que o que as imagens mostram é “literalmente verdadeiro … ou substancialmente verdadeiro”. E por isso afirmou que a produtora não vai removê-las. 

A Associated Newspapers respondeu na última quinta-feira, 1º de abril, acusando a Harpo de trair a confiança dos telespectadores ao exibir manchetes “falsas” na entrevista de Harry e Meghan. 

A diretora jurídica do grupo, Elizabeth Hartley, mostrou-se furiosa em sua réplica ao advogado: 

“Tenho enfatizado em cada uma de minhas cartas que esta é uma questão de exatidão e integridade. É uma traição à confiança dos telespectadores transmitir imagens falsas. 

A relutância de seu cliente em remover essas manchetes e atribuições falsas fala por si. Não há qualquer justificativa para falsificar conteúdo. Se os pontos de vista estivessem corretos, não seria necessário implantar táticas desleais.”

As montagens 

A investigação feita pelo Daily Telegraph comprovou que 11 das mais de 30 manchetes mostradas durante a entrevista foram extraídas de publicações americanas e australianas. Algumas são de revistas de fofoca de baixa reputação, vendidas em supermercados, que acabaram sendo associadas visualmente a jornais britânicos.  

Um dos exemplos é esta imagem, com o título Star, que para os britânicos lembra facilmente o tabloide Daily Star. 

Na verdade, trata-se de uma revista americana de celebridades, que noticiou a discórdia entre Meghan e Kate Middleton. 

Há também casos em que uma matéria com opinião desfavorável sobre Meghan foi editada graficamente para inferir discriminação racial.   

Um dos exemplos apresentados pelo Telegraph foi o de um artigo de opinião publicado pelo próprio jornal em dezembro passado, de autoria do colunista Michael Deacon. O recorte exibido na entrevista de Harry e Meghan a Oprah mostrava o título O verdadeiro problema com Meghan Markle: ela simplesmente não fala nossa língua.

O QUE ELES MOSTRARAM: A equipe de Oprah reduziu este artigo do Telegraph a uma manchete sugerindo que a Duquesa 'não fala nossa língua'. Ao fazerem uma simulação do site do Telegraph, eles soletraram

O artigo criticava a forma de Meghan falar, a propósito de seu podcast, sugerindo que ela não era bem compreendida pelos britânicos por empregar o que o autor classificou de “linguagem hippie de gestão corporativa californiana”. 

“Sadly, we just don’t understand her. Because she doesn’t speak English. She speaks Californian.” 

Depois que a entrevista foi ao ar, Deacon escreveu nova coluna sustentando que o artigo não zombava da etnia da duquesa, e sim de sua forma de falar. Mas embora não haja conotação racial, não deixa de haver um componente preconceituoso, que se percebe pelo uso das palavras “nós” e “ela”, sinalizando o abismo cultural entre britânicos e americanos.  

E o desconforto que ela causou entre setores mais conservadores por ser estrangeira. 

Por isso, o trecho do Daily Telepgraph pode até ser discutível. Mas outros são difíceis de explicar. 

O caso mais notório é o da matéria publicada pelo Mail On Sunday em janeiro de 2018 em que o jornal denunciou comentários racistas feitos sobre Meghan pela namorada do então líder do partido de direita, Ukip Henry Bolton. Ela sugeriu à época que a “semente de Meghan iria tingir a família real”.  

Na montagem que foi ao ar na entrevista de Harry e Meghan a Oprah, a fala foi apresentada em destaque, como se tivesse sido a manchete, dando a impressão de um endosso do jornal à opinião. 

O QUE ELES MOSTRARAM: A manchete simulada supostamente deste site foi reduzida a uma única citação e apareceu enquanto um comentarista discutia 'conotações racistas inegáveis' na cobertura da mídia

No entanto, a matéria original não deixa dúvidas sobre a posição contrária à declaração, classificada pelo Daily Mail de “ataque racista vil”. No texto, as mensagens de Jo Marney são chamadas de “chocantes”. 

 

Até a BBC entrou involuntariamente na história. Uma das imagens que apareceu na entrevista de Harry e Meghan a Oprah foi a de uma matéria sobre um programa humorístico da emissora retratando a Duquesa de forma jocosa por meio de animações em 3D.

Na entrevista ao jornal, a criadora do programa diz que a ideia era achar humor no ridículo, por ser “o oposto de como a Duquesa realmente se comporta”. E afirmou: “Qualquer pessoa que já viu Meghan Markle em público sabe que ela parece incrivelmente agradável e amigável, sempre sorrindo”.  Mas o trecho isolado provoca uma leitura diferente. 

O QUE ELES MOSTRARAM: A manchete dizia 'Comédia da BBC retrata Meghan Markle como' 'lixo de trailer' 'Americana que ameaça esfaquear Kate Middleton'. Mas o personagem foi concebido para ser o oposto de como Meghan realmente era

O The Guardian foi igualmente alvo das montagens distorcidas. Um dos recortes exibidos no programa mostra uma suposta manchete sobre a manifestação racista feita pelo apresentador de rádio Danny Baker a respeito do bebê dos Sussex, sem inferir recriminação.  

A matéria original era outra. Ela noticiava o pedido de desculpas feito pelo apresentador, com título salientando o adjetivo de “grosseiro” por ele utilizado para se retratar. 

Discriminação racial no jornalismo exposta

Os jornais atingidos podem conseguir reverter os danos à sua imagem, demonstrando que seu conteúdo foi usado fora de contexto. A tomada de posição da Associated Newspapers pode estar relacionada ao processo movido por Meghan contra o Mail on Sunday. Até o momento, nenhum outro jornal atingido pediu remoção de suas imagens, pelo menos publicamente. 

Mas a crise desencadeada no jornalismo britânico pela entrevista de Harry e Meghan à Oprah Winfrey está longe do fim. 

Ela já custou pelo menos duas cabeças importantes. Um dos mais populares apresentadores de TV, Piers Morgan, deixou o prestigiado noticiário matinal Good Morning Britain e a emissora ITV depois de sair do estúdio em pleno ar por ter sido confrontado por um colega de bancada sobre questionamentos a respeito da veracidade das declarações da duquesa sobre suicídio.

Ian Murray, que dirigia a Sociedade dos Editores, também teve que entregar o cargo devido à reação furiosa a uma nota em que negava as acusações de racismo na imprensafeitas por Harry e Meghan.

Mais de 200 jornalistas integrantes de minorias raciais e étnicas assinaram um manifesto contra o que classificaram de “ato de uma indústria em negação”.A Sociedade teve que cancelar seu prêmio anual. E uma renomada ex-editora do Sunday Times,Eleanor Mills, desligou-se do conselho da entidade por discordar da posição de não assumir a existência de discriminação.  

Coincidência ou não, uma pesquisa do Instituto Reuters para Estudos de Jornalismo na Universidade de Oxford, publicada no Dia Mundial contra a Discriminação Racial, revelouque todos os diretores de redação dos veículos britânicos de maior audiência são brancos.

Não custa lembrar que o Reino Unido não está sozinho nessa. Entre os cinco países examinados pelo Instituto, três não têm negros ou integrantes de minorias no comando. Um deles é o Brasil. O outro é a Alemanha. 

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