Pesquisa em 81 países, incluindo o Brasil, revela como como governos e partidos vêm usando tropas cibernéticas para espalhar desinformação política e manipular a opinião pública 

 

Por Aldo De Luca | MediaTalks, Londres

 

Em um artigo no site de estudos acadêmicos The Conversation, a pesquisadora Hanna Bailey (Oxford Internet Institute – OII) alertou: “A remoção de Donald Trump das plataformas de mídia social reacendeu o debate em torno da censura de informações publicadas online, mas a questão da desinformação e manipulação nas mídias sociais vai muito além da conta de um homem no Twitter, e é muito mais difundida do que se pensa”.

Bailey faz parte da equipe que tem monitorado nos últimos quatro anos a proliferação global de campanhas de manipulação política de mídia social – definidas como propaganda computacional, por utilizarem ferramentas e estratégias digitais para influenciar o comportamento do público online.

Para os pesquisadores, a desinformação industrializada está se tornando mais profissionalizada e produzida em cada vez maior escala pelos principais governos, partidos políticos e firmas de relações públicas por eles contratadas, e deve causar preocupação crescente para as democracias em todo o mundo.

Essa é a principal conclusão do último relatório do Oxford Internet Institute, o Inventário Global de Manipulação Organizada da Mídia Social 2020, de autoria de Philip Howard, Hanna Bailey e Samantha Bradshaw.

O documento revela as maneiras como agências governamentais e partidos políticos têm usado de forma crescente as mídias sociais para espalhar desinformação política, poluir o ecossistema de informação digital e suprimir a liberdade de expressão e de imprensa.

O professor Philip Howard, diretor do OII, resume:

“Nosso relatório mostra que a desinformação profissionalizou-se mais e agora é produzida em escala industrial. Mais do que nunca, o público precisa contar com informações confiáveis sobre as políticas e atividades governamentais. As empresas de mídia social precisam aumentar seus esforços para sinalizar desinformação e fechar contas falsas sem a necessidade de intervenção dos governos, para que o público tenha acesso a informações de alta qualidade.”

O relatório registra a participação de empresas de comunicação e de relações públicas contratadas pelos governos para apoiar a produção de desinformação industrializada e profissionalizada. Mas lembra que embora as mídias sociais possam aumentar a escala e o escopo da desinformação, muitas das questões no centro da propaganda computacional – polarização, desconfiança e declínio da democracia – são anteriores às mídias sociais e até mesmo à própria internet.

O Brasil é apontado como país de média capacidade de organização, com tropas atuando ao longo de todo o ano para influenciar o debate político, incluindo membros do governo, partidos, firmas contratadas e influenciadores voluntários. O OII afirma que quatro das cinco estratégias principais de manipulação são utilizadas no País.

Para Hanna Bailey, apesar de o escândalo Cambridge Analytica ter exposto como as empresas privadas podem interferir em eleições democráticas, a pesquisa encontrou um aumento alarmante no uso de serviços de “desinformação de aluguel” em todo o mundo:

“Usando financiamento do governo e de partidos políticos, tropas cibernéticas do setor privado estão cada vez mais ajudando a espalhar mensagens manipuladas online ou a abafar outras vozes nas redes sociais:”

Três tendências principais verificadas em 81 países

O estudo descreve as ferramentas, capacidades, estratégias e recursos usados em 2020  para manipular politicamente a opinião pública. E identifica as tendências recentes da propaganda computacional em 81 países:

Fonte: OII

“1. A atividade das tropas cibernéticas continua a aumentar em todo o mundo. Em 2020, foram encontradas evidências do uso das mídias sociais para espalhar propaganda computacional e desinformação política em 81 nações. Isso aumentou em relação ao relatório do ano anterior, no qual essas atividades tinham sido identificadas em 70 países.

2. No ano passado, as empresas de mídias sociais adotaram medidas importantes para combater o uso indevido de suas plataformas por tropas cibernéticas. O Facebook e o Twitter anunciaram que entre janeiro de 2019 e novembro de 2020 removeram mais de 317.000 contas e páginas de suas plataformas. Por outro lado, quase US$ 10 milhões foram gastos em publicidade com finalidade política por tropas cibernéticas que operam nos países analisados.

3. As empresas privadas desenvolvem cada vez mais campanhas de manipulação. Em 2020 foram identificadas empresas realizando propaganda computacional em nome de um ator político em 48 países, quase o dobro do ano anterior. Desde 2018, mais de 65 empresas oferecem propaganda computacional como serviço. No total, considerando apenas os informes oficiais, quase US$ 60 milhões foram gastos por governos na contratação dessas empresas desde 2009″.

 

 

 

O mapa com os 81 países assinalados em azul escuro mostra que as tropas cibernéticas estão por toda parte.

Os responsáveis pela manipulação da opinião pública, das agendas políticas e do debate de ideias

De acordo com a pesquisa, as agências governamentais estão cada vez mais usando propaganda computacional para direcionar a opinião pública. Os pesquisadores encontraram evidências dessa prática em 62 países:

” Nesta categoria das agências governamentais incluímos ministérios, militares e a força policial. A partir de 2020 também consideramos a mídia financiada pelo estado,  já que alguns governos têm usado as organizaçõesde mídia estatais como uma ferramenta para divulgar propaganda computacional, tanto no mercado interno quanto no externo.”

 

Photo Jana Shnipelson / Unsplash

 

A Bielorrússia é mencionada como um dos países em que o governo controla mais de 600 veículos de notícias, muitos dos quais mostram evidências de propaganda e manipulação.

 

 

Outra categoria importante é a de partidos políticos ou políticos que concorrem a cargos públicos usando ferramentas e técnicas de propaganda computacional como parte de suas campanhas políticas. Isso foi verificado em 61 países pelos pesquisadores:

A mídia social tornou-se um componente crucial da campanha digital, e alguns atores políticos têm usado o alcance e a onipresença dessas plataformas para espalhar desinformação, suprimir a participação política e minar os partidos de oposição”.

O documento destaca a Tunísia, ressaltando que as páginas locais do Facebook sem links diretos para os candidatos ampliaram a desinformação e polarizaram o conteúdo antes das últimas eleições. E aponta que Michael Bloomberg, que disputou em 2020 as primárias do Partido Democrata dos Estados Unidos, usou contas falsas no Twitter em sua campanha, contratando centenas de operadores para ampliar artificialmente o seu apoio.

Outra categoria destacada é a das empresas privadas, com base em evidências de derrubadas promovidas por plataformas devido a comportamento inautêntico coordenado, além de investigações jornalísticas que ajudaram a identificar um número crescente de firmas de comunicação política contratadas para a divulgação de desinformação.

“Encontramos em 48 países evidências de atores estatais trabalhando com empresas privadas ou firmas de comunicação estratégica que oferecem propaganda computacional como serviço. Esses contratos podem ser altamente lucrativos: desde 2009, detectamos quase US$ 60 milhões gastos em contratos governamentais com empresas privadas. É importante lembrar que esses valores são apenas de relatórios confirmados: suspeitamos que o valor real seja muito superior”.

Um exemplo de empresa privada apontada no relatório inclui o Grupo Archimedes, com sede em Israel, que realizou várias campanhas em África, América Latina e Sudeste Asiático,

 

 

Outro exemplo é o da espanhola Eliminalia, que usou propaganda computacional para apoiar as eleições locais na Colômbia, bem como campanhas no Equador e na República Dominicana.

 

Organizações da Sociedade Civil também são apontadas como elementos importantes das campanhas de manipulação. A pesquisa descobriu que elas geralmente trabalham em conjunto com tropas cibernéticas, incluindo subculturas da internet, grupos de jovens, coletivos de hackers, movimentos marginais, influenciadores de mídia social e voluntários que apoiam ideologicamente uma causa. Os “grupos de discussão” da Indonésia que trabalharam nas campanhas políticas durante as eleições de 2019 são mencionados como exemplo no estudo.

“A distinção entre esses grupos pode muitas vezes ser difícil, especialmente porque as atividades podem ser implícita e explicitamente sancionadas pelo estado. No estudo, procuramos evidências de coordenação formal ou atividades que são oficialmente sancionadas pelo estado ou por um partido político, em vez de campanhas que podem ser implicitamente sancionadas devido a fatores como sobreposição de ideologias ou objetivos. Encontramos 23  países que trabalharam em conjunto com grupos da sociedade civil e 51 que trabalharam com influenciadores para espalhar propaganda computacional.”

De acordo com Samantha Bradshaw, uma das autoras do relatório, a atividade das tropas cibernéticas pode parecer diferente nas democracias, em comparação com os regimes autoritários:

“As autoridades eleitorais precisam considerar o ecossistema mais amplo de desinformação e propaganda computacional, incluindo empresas privadas e influenciadores pagos, que são atores cada vez mais proeminentes neste espaço.”

 

Bots e humanos unidos na manipulação política

O estudo encontrou evidências de contas automatizadas usadas na propaganda computacional em 57 países, como bots criados por várias instituições públicas em Honduras, incluindo a Estação de Televisão Nacional.

Mais comum, entretanto, foi o uso de contas com curadoria humana, verificado em 79 países. Elas podem usar baixos níveis de automação, mas também envolvem-se em conversas postando comentários ou tweets, ou por mensagens privadas por meio de plataformas de mídia social.

Outro tipo de conta real, menos usada, com uso identificado em 14 países, foi o das contas hackeadas, roubadas ou de personificação, estas últimas simulando serem de outras pessoas.

 

Estratégias e Táticas 

Os pesquisadores identificaram as principais estratégias utilizadas pelas tropas cibernéticas em suas atividades de manipulação da opinião pública:

1. Criação de desinformação ou de mídia manipulada, incluindo sites de “notícias falsas”, memes adulterados, imagens ou vídeos maliciosamente editados ou outras formas de conteúdo online enganoso. Este é o tipo de estratégia de comunicação mais proeminente, encontrado em 76 países.

Os pesquisadores encontraram poucos exemplos de uso de deep fake. As imagens e vídeos editados ainda são a forma mais importante de manipulação. Um exemplo citado no relatório foi o vídeo manipulado da ministra da Segurança argentina, Patricia Bullrich, antes das eleições de 2019, editado para fazê-la parecer embriagada.

2. Amplificação de conteúdo – Com o uso de perfis reais ou falsos, coordenados principalmente por bots de maneira automatizada ou por pessoas voluntárias ou contratadas, amplifica-se artificialmente um determinado tópico de interesse. O relatório cita um exemplo dos Estados Unidos, onde os pesquisadores identificaram adolescentes recrutados por um grupo de jovens pró-Trump, chamado Turning Point Action, para espalhar narrativas pró-Trump, bem como desinformação a respeito do envio de cédulas eleitorais pelo correio ou do impacto do coronavírus.

3. Estratégias baseadas em dados – São usadas para traçar o perfil e atingir segmentos específicos da população com mensagens direcionadas e anúncios políticos. O relatório menciona as eleições gerais de 2019 no Reino Unido, durante as quais a agência checadora First Draft News identificou que 90% dos anúncios do Partido Conservador no Facebook nos primeiros dias de dezembro de 2019 promoveram alegações verificadas como enganosas.

Em 30 países, foram identificados casos de estratégias baseadas em dados, em muitos casos facilitados por empresas privadas que usaram a infraestrutura de publicidade das plataformas de mídia social para direcionar anúncios para públicos nacionais e estrangeiros.

Os autores destacaram como exemplo a firma canadense Estraterra, que gastou aproximadamente US$ 1,38 milhão em anúncios no Facebook direcionados a públicos no Equador, bem como em outros países da América Latina.

4. Trolling ou assédio onlineEm 59 países, foram encontradas evidências de trolls sendo usados ​​para atacar oponentes políticos, ativistas ou jornalistas nas redes sociais. Embora muitas vezes pensadas como constituídas por redes de jovens e estudantes, essas equipes podem ser compostas por uma ampla gama de indivíduos.

A atividade das tropas cibernéticas no Tajiquistão, onde o Ministério da Educação e Ciência atribui atividades de trollagem a professores em campanhas coordenadas para desacreditar os oponentes, é um exemplo.

5. Denúncias massivas de conteúdo impróprio em contas de oponentesPostagens de ativistas, dissidentes políticos ou de jornalistas são reportadas por uma rede coordenada de contas de tropas cibernéticas como sendo de conteúdo impróprio, a fim de estimular os sistemas automatizados das empresas de mídia social a sinalizá-las ou até removê-las. Essa prática por enquanto tem sido a menos usada, identificada apenas em sete países no ano passado. Um exemplo foi verificado no Paquistão, onde as tropas cibernéticas denunciaram tweets de opositores como spam, fazendo com que os algoritmos do Twitter bloqueassem o seu acesso aos trending topics.

 

O estudo verificou que em 2020 no Brasil foram utilizadas quatro dessas cinco  estratégias globais. A única não identificada com consistência no país foi o report massivo de denúncias por conteúdo impróprio para induzir os algoritmos das plataformas a retirar posts ou canais de oponentes políticos.

 

Principais conteúdos de manipulação 

1. Propaganda pró-governo ou partido político – Envolve o uso de propaganda computacional para amplificar artificialmente mensagens de apoio ao governo ou ao partido político. Um exemplo de narrativa pró-governo de 2019-2020 inclui o uso de contas de bot automatizadas no Líbano, usadas para amplificar artificialmente hashtags de apoio ao secretário-geral do Hezbollah.

2. Ataques a opositores e campanhas de difamação – Um exemplo citado foi o de cibercriminosos apoiados pela China, que continuam a usar plataformas de mídia social para lançar difamação e campanhas contra manifestantes de Hong Kong.

3. Supressão da participação política por trolagem ou assédio online – As tropas cibernéticas estão adotando cada vez mais o vocabulário do assédio para silenciar a dissidência política e a liberdade de imprensa. O relatório menciona os “centros de rede” guatemaltecos que usam contas falsas para rotular os opositores como “terroristas ou invasores estrangeiros” e atacam jornalistas com vocabulário associado à guerra, como “inimigos do país”.

4. Divisão e polarização da sociedade – Os partidos políticos populistas usam narrativas de mídia social que impulsionam a divisão e polarizam os cidadãos. O relatório chama a atenção para centros de trolls na Nigéria, com conexões suspeitas com a Agência de Pesquisa da Internet na Rússia. Esses centros estão espalhando desinformação em torno de questões sociais para polarizar o discurso online, a partir da Nigéria e como parte das operações de influência estrangeira da Rússia visando os Estados Unidos e o Reino Unido.

No Brasil foram encontradas pelos pesquisadores evidências da utilização de todos esses tipos de conteúdo ao longo de 2020.

Grande negócio  

Os pesquisadores verificaram que a forma como as tropas cibernéticas atuam varia de país para país. Algumas equipes surgem temporariamente durante eleições ou para moldar a opinião pública em torno de um tema de interesse.

Em outros casos, as tropas cibernéticas são integradas à mídia e ao ecossistema de comunicação, com integrantes pagos para trabalhar em tempo integral a fim de controlar, censurar e moldar as conversas e as informações online. O relatório aponta que esse é o caso da Venezuela.

Com base em documentos vazados em 2018, o estudo descreve como as equipes de desinformação venezuelanas eram organizadas seguindo uma estrutura militar, onde cada pessoa podia administrar até 23 contas, e fazer parte de um esquadrão (dez pessoas), companhia (50 pessoas), batalhão (100 pessoas) ou brigada (500 pessoas). Dessa maneira, cada batalhão de desinformação tinha capacidade para operar até 11.500 contas. As pessoas podiam inscrever-se para contas no Twitter e no Instagram em quiosques autorizados pelo governo e eram recompensadas com cupons para alimentos e mercadorias.

Estudo classifica tropas cibernéticas do Brasil como de capacidade média 

Os pesquisadores desenvolveram uma medida para avaliar comparativamente a capacidade das equipes de tropas cibernéticas em relação umas às outras, levando em consideração o número de atores governamentais envolvidos, a sofisticação das ferramentas utilizadas, o número de campanhas desenvolvidas, o tamanho e permanência das equipes e os orçamentos ou despesas feitas.

Dessa maneira, as tropas cibernéticas dos 81 países onde os pesquisadores encontraram evidências de suas atividades no ano passado foram divididas em três grandes grupos, sendo 18 de alta capacidade, 36 de média e 27 de baixa:

  • Alta capacidade: Australia, China, Egypt, India, Iran, Iraq, Israel, Myanmar, Pakistan, Philippines, Russia, Saudi Arabia, Ukraine, United Arab Emirates, United Kingdom, United States, Venezuela e Vietnam.
  • Capacidade média: Armenia, Austria, Azerbaijan, Bahrain, Belarus, Bolivia, Brazil, Cambodia, Cuba, Czech Republic, Eritrea, Ethiopia, Georgia, Guatemala, Hungary, Indonesia, Kazakhstan, Kenya, Kuwait, Lebanon, Libya, Malaysia, Malta, Mexico, Nigeria, North Korea, Poland, Rwanda, South Korea, Sri Lanka, Syria, Taiwan, Tajikistan, Thailand, Turkey e Yemen.
  • Baixa capacidade: Angola, Argentina, Bosnia & Herzegovina, Colombia, Costa Rica, Croatia, Ecuador, El Salvador, Germany, Ghana, Greece, Honduras, Italy, Kyrgyzstan, Moldova, Netherlands, Oman, Qatar, Republic of North Macedonia, Serbia, South Africa, Spain, Sudan, Sweden, Tunisia, Uzbekistan e Zimbabwe.

 

 

Os pesquisadores verificaram que as equipes dedicadas à propaganda computacional no Brasil atuam de forma permanente, com ação coordenada e disponibilização dos recursos necessários. Segundo o relatório, as tropas cibernéticas do País são integradas por membros do Governo, de partidos políticos, firmas especializadas contratadas e voluntários entre cidadãos e influenciadores.

 

Técnicas de desinformação devem avançar com desenvolvimento de tecnologias como inteligência artificial e realidade virtual 

O documento afirma que a propaganda computacional tornou-se um pilar na vida pública e que suas técnicas continuarão a evoluir com o avanço de novas tecnologias – incluindo Inteligência Artificial, Realidade Virtual ou a Internet das Coisas. Mas o estudo ressalta que a propaganda computacional não existe ou se espalha de forma independente:

“É o resultado de escolhas inadequadas de design de tecnologia, supervisão negligente de políticas públicas e inação por parte das lideranças das plataformas de mídia social, somados aos investimentos de governos autoritários, partidos políticos e empresas de comunicação convencionais.”

A propaganda computacional também é um impulsionador de outros males democráticos, incluindo polarização política e diminuição da confiança pública nas instituições democráticas

“Se por um lado as plataformas de mídia social são parte importante das instituições democráticas, que são fortalecidas por informações de alta qualidade, por outro o relatório apresenta evidências de que em mais países do que nunca essas mesmas plataformas fornecem desinformação a pedido de grandes governos, partidos políticos e empresas de relações públicas.”

“Enquanto plataformas lucrarem com desinformação, campanhas de propaganda computacional ameaçarão democracias”

Essa é a opinião de Hanna Bailey. Em seu  artigo no The Conversation, ela destacou que os debates sobre a censura de Trump e de seus apoiadores nas redes sociais cobrem apenas uma faceta da crise de desinformação:

“À medida que mais governos investem em campanhas que buscam enganar ativamente seus cidadãos, as empresas de mídia social provavelmente enfrentarão mais pedidos de moderação e regulamentação – e não apenas de Trump, seus seguidores e teorias de conspiração relacionadas como QAnon.”

O relatório do Oxford Internet Institute revela que entre janeiro de 2019 e dezembro de 2020 o Facebook removeu 10.893 contas, 12.588 páginas e 603 grupos de sua plataforma. No mesmo período, o Twitter removeu 294.096 contas e continua removendo contas vinculadas à extrema direita. Porém, o texto questiona se esse ritmo é suficiente:

“Tanto a pandemia de Covid-19 quanto a eleição nos Estados Unidos forçaram muitas empresas de mídia social a sinalizar melhor a desinformação, a fechar contas falsas e a elevar os padrões de qualidade da informação e de civilidade em conversas públicas. Nem todos concordam que essas iniciativas são suficientes. Também não está claro se essas respostas mais agressivas das empresas de mídia social serão aplicadas a outras áreas ou países.”

Bailey acredita que o ponto crucial da história é que as empresas de mídia social continuam lucrando com a promoção da desinformação em suas plataformas.

“Pedidos por regulamentação mais rígida e moderação firme continuarão até Facebook, Twitter e outras empresas passarem realmente a lutar contra a tendência de suas plataformas de hospedar, espalhar e multiplicar a desinformação. Caso contrário, a escalada contínua em campanhas de propaganda computacional que vem sendo revelada pela pesquisa aumentará a polarização política, diminuirá a confiança pública nas instituições e prejudicará ainda mais a democracia em todo o mundo.”


Aldo De Luca, Conselheiro e colaborador do MediaTalks byJ&Cia, é jornalista brasileiro radicado em Londres. Formado em Jornalismo pela UFF (Universidade Federal Fluminense), foi repórter especial do jornal O Globo em 1987 e 1988. Fundou junto com Luciana Gurgel a agência Publicom, que se tornou uma das maiores empresas do setor no Brasil e em 2016 foi adquirida pela WeberShandwick (IPG Group). Além de jornalista, é Engenheiro pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Integra a FPA (UK Foreign Press Association).
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