A marca Trump neste momento é radioativa, com empresas afastando-se dela e até da política, avalia a consultora Allyson Stewart-Allen

 

 

  • Mapeamento da atividade de Trump no Twitter mostra que ele atacou a Imprensa mais de uma vez por dia na rede
  • Oxford Internet Institute aponta que manipulação das redes sociais por governos foi praticada em 81 países em 2020

 

 

 

 

 

 

Por Luciana Gurgel | MediaTalks, Londres | @lcnqgur
 
                                                Coluna publicada originalmente no J&Cia e Portal dos Jornalistas em 21.01.2021

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O avião levando Donald Trump decolou no dia 20 de janeiro de Washington ao som de My Way, de Frank Sinatra, com o presidente deixando para trás um enorme passivo de reputação negativa. São dele os títulos de maior gerador de fake news sobre a pandemia concedido pela Universidade de Cornell e o de líder do país com a pior gestão da crise sanitária dentre 105 nações avaliadas pela consultoria Brand Finance.

Na despedida, Trump disse que vai voltar, de alguma forma. Mas pairam dúvidas sobre o futuro da marca Trump nos negócios e na política. Em um briefing da FPA (Foreign Press Association), em Londres, na segunda-feira (18/1), a especialista em marketing americana Allyson Stewart-Allen foi categórica: “Trump é hoje uma marca radioativa”.


Consultora de instituições e empresas, ela disse não ver há muito um movimento como o atual,  com corporações distanciando-se do ex-presidente e da política. JPMorgan e Goldman Sachs estão entre os que planejam suspender doações a partidos depois dos conflitos no Capitólio.

Em um memo interno, a chefe de assuntos governamentais do Citi assegurou aos funcionários que o banco não apoia candidatos que desrespeitam leis. A rede hoteleira Marriott e a seguradora de saúde Blue Cross anunciaram cancelamento do suporte a senadores que votaram contra a certificação de Joe Biden.

No entanto, Stewart-Allen não bateu o martelo sobre o fim da marca Trump. Lembrou que ele foi votado por 74 milhões de pessoas, que ainda o amam e podem querer sua filha Ivanka na Casa Branca.

A consultora comentou sobre um possível rebranding da família, com Jared e Ivanka adotando a marca Kushner para se afastarem de um Trump enrascado legal e financeiramente.

Sua aposta é que se Joe Biden e Kamala Harris continuarem em harmonia, reelegem-se com facilidade, complicando a recuperação da marca Trump. E acredita em mais desgaste à medida que livros desfavoráveis à sua administração comecem a sair.

Os podres podem afetar a própria Ivanka. O Washington Post revelou semana passada que os contribuintes pagam US$ 3 mil de aluguel ao mês desde 2017 em um imóvel usado como banheiro para os seguranças da primeira-filha porque eles foram proibidos de usar um dos 12 existentes na casa onde ela vive. A contar com o desconforto que Trump pode ter causado à burocracia estatal, mais histórias sórdidas devem brotar dos porões da Casa Branca.

Stewart-Allen acredita que Joe Biden tem condições reverter com ações concretas a fama dos Estados Unidos de país pouco amigável. Coisa que ele começou a fazer já no dia da posse, com medidas simpáticas a imigrantes e à comunidade muçulmana.

Trump tuitou mais de uma vez por dia contra a imprensa

A marca Trump pode até ser resgatada entre o público, mas entre jornalistas − exceto os que fazem parte de seu séquito de admiradores − vai ser difícil. Um levantamento do projeto US Press Freedom Tracker mostrou que de junho de 2015 (quando se lançou candidato) até ser enxotado do Twitter, o ex-presidente tuitou 2.520 contra a imprensa. A incrível média de mais de um ataque por dia.

O projeto catalogou as manifestações e construiu um quadro da marcha incansável para minar a confiança do público no jornalismo, com o uso frequente de expressões como lamestream media e inimigos do povo.

Allyson Stewart-Allen não tem dúvidas sobre o impacto da campanha de Trump contra o jornalismo:

“Ao tentar desacreditar a “mídia de esquerda”, ele tentou fazer seus seguidores duvidarem da credibilidade e veracidade da imprensa, o que acabou rendendo dividendos. Sobretudo os menos  instruídos são influenciados pelos comentários pelo seu cargo de presidente dos Estados Unidos”. 

A consultora acha que Trump tornou o discurso de ódio e o bullying online muito mais prevalentes e aceitáveis, enquanto ironicamente sua esposa Melania adotou o “bullying online” como causa oficial da primeira-dama:

“Tenho certeza de que isso que não é coincidência. Trump aproveitou  as plataformas para ser ouvido, embora por enquanto elas tenham fechado as portas para ele. Mas o verdadeiro problema para mim é a abdicação da responsabilidade das mídias sociais de policiar o conteúdo de seus sites, visto que são editores e não hosts/plataformas.  A lei dos Estados Unidos deve realmente deve ser alterada e atualizada”. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mídias sociais manipuladas por agentes estatais, inclusive no Brasil

 

Mas nem todos acham que a remoção de Trump do Twitter é o fim da história. Para Hanna Bailey, pesquisadora do Internet Institute da Universidade de Oxford, a expulsão dele ofusca o problema real: a manipulação das redes sociais comandada por governos.

O instituto fez um estudo em 81 países e chegou a um diagnóstico assustador, mostrando que a desinformação com patrocínio estatal profissionalizou-se e agora é produzida em escala industrial, com governos e partidos políticos investindo fortunas em tropas cibernéticas privadas.

O Brasil é apontado como país de média capacidade de organização, com tropas atuando ao longo de todo o ano para influenciar o debate político, incluindo membros do governo, partidos, firmas contratadas e influenciadores voluntários. O OII afirma que quatro das cinco estratégias principais de manipulação são utilizadas no País.  Trump foi-se, mas não os problemas que ele passou a simbolizar.

 

 

 

 

 

Luciana Gurgel,  Coordenadora editorial  do MediaTalks byJ&Cia, é jornalista brasileira radicada em Londres. Iniciou a carreira no jornal o Globo, seguindo depois para a comunicação corporativa. Em 1988 fundou a agência Publicom, junto com Aldo De Luca, que se tornou uma das maiores empresas do setor no Brasil e em 2016 foi adquirida pela WeberShandwick (IPG Group). Mudou-se para o Reino Unido e passou a colaborar com veículos brasileiros, atuando como correspondente do canal MyNews e colunista semanal do Jornalistas&Cia / Portal do Jornalistas, no qual assina uma coluna semanal sobre tendências no mundo do jornalismo e da comunicação. É membro da FPA (Foreign Press Association). 
 
Os artigos do MediaTalks by J&Cia podem ser reproduzidos no todo ou em parte com citação da fonte e do autor, com link para o original. 

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