Com as mortes no Capitólio, os Estados Unidos receberam uma dura lição sobre como a desinformação online pode ter um grave impacto offline, diz Marc-André Argentino, pesquisador de teorias da conspiração 

 

 

  • Quais os danos das teorias da conspiração? Ameaças à democracia e à ordem pública, para citar apenas dois, diz estudioso
  • Pesquisador prevê que violência pode continuar,  já que QAnon continua a crescer na cultura americana
Por Aldo De Luca | MediaTalks, Londres 
2.02.2021

No ataque ao Capitólio, quem não teve sua atenção voltada para um homem com chapéu de pele e imensos chifres, sem camisa e corpo cheio de tatuagens? Conhecido como QAnon Shaman, ele era um dos líderes da invasão, juntamente com outros adeptos que avançavam na linha de frente vestindo camisas que ostentavam o símbolo Q da teoria conspiratória.

Para Marc-André Argentino, doutorando da Universidade de Concordia, no Canadá, filiado à Global Network on Extremism & Technology e estudioso do QAnon há mais de dois anos, essas cenas ilustram bem os perigos que uma teoria conspiratória online pode causar na vida real.

“A ideologia militante e anti-establishment do QAnon – enraizada em um desejo quase apocalíptico de destruir o mundo existente e corrupto e inaugurar uma era de ouro prometida – estava em plena exibição para o mundo todo ver.”

Invasão buscava milagre que anulasse as eleições

Em um artigo no portal de textos acadêmicos The Conversation, Marc-André classifica a invasão do Capitólio como resultado da esperança cultivada nos círculos do QAnon de que algum milagre via vice-presidente Mike Pence ou outra bruxaria constitucional seria capaz de anular as eleições e manter no cargo aquele que consideravam o único capaz de desafiar o Deep State e consertar o mundo.

“O QAnon é um movimento extremista descentralizado, de motivação ideológica e violenta, enraizado em uma teoria da conspiração infundada de que uma cabala global de “Estado Profundo” de elites pedófilas satânicas é responsável por todo o mal no mundo. Os adeptos do QAnon acreditam que é essa cabala que se opõe a Trump, o qual é visto por eles como a única esperança para derrotá-la.

Já passamos há muito do ponto de simplesmente perguntar: como as pessoas podem acreditar no QAnon quando tantas de suas afirmações vão contra os fatos? Qual é o custo das teorias da conspiração? Ameaças à democracia e à ordem pública, para citar apenas duas coisas. Os Estados Unidos receberam uma lição dura sobre como a desinformação online tem um impacto offline.”

Reconhecimento de Trump em 2020 deu respeito e insuflou movimento

Para Marc-André, não importa quanta evidência jornalistas ou acadêmicos ofereçam para rebater teorias promovidas pelo movimento. A crença em QAnon como fonte da verdade é uma questão de fé – especificamente em sua fé em Trump e “Q,” o fundador que começou o movimento em 2017 postando uma série de teorias selvagens sobre o Deep State e que até hoje permanece anônimo – daí o nome QAnon.

Mas foi em 2020 que, segundo Marc-André, Trump finalmente deu ao QAnon o que ele sempre quis: respeito. Ele cita Travis View, também pesquisador da teoria, para comprovar isso:

“Nos últimos meses Trump reconheceu a comunidade QAnon de uma forma que seus seguidores só poderiam ter fantasiado há dois anos atrás, quando comecei a acompanhar o crescimento do movimento.”

Ideologia político-religiosa extremista

O estudioso classifica o QAnon como uma “religião hiper-real”, que se apropria de elementos culturais populares e os integra em uma estrutura ideológica.

“Embora tenha começado como uma série de falsas previsões, nos últimos anos o QAnon evoluiu para uma ideologia político-religiosa extremista. Sua essência está em tentar delinear e explicar o mal. 

O QAnon se torna a narrativa mestre capaz de simplesmente explicar vários eventos complexos. O resultado é uma cosmovisão caracterizada por uma nítida distinção entre os reinos do bem e do mal que oferece aos seus adeptos conforto em uma era incerta e sem precedentes.”

Crescimento pós-pandemia

Os números apresentados por Marc-André comprovam que a pandemia da COVID-19 desempenhou um papel significativo na popularização do movimento QAnon. Dados do Facebook desde o início de 2020 mostram que o número de membros da QAnon cresceu 581 por cento – principalmente depois que os Estados Unidos fecharam suas fronteiras em março como parte de sua estratégia de contenção do vírus.

 

 

Marc-André cita o pesquisador de mídia social Alex Kaplan, que afirmou que 2020 foi o ano em que o “QAnon se tornou todo o nosso problema”, já que, depois de ganhar força espalhando desinformação relacionada à pandemia, o movimento foi posteriormente incorporado por 97 candidatos ao Congresso dos EUA que mostraram publicamente apoio QAnon.

O futuro sem Trump. Ou não?

Criado durante o governo Trump e depois de passar três anos afirmando que ele derrotaria o Deep State e a cabala internacional, os adeptos do QAnon veem seu guru sair de cena – mas não derrotado, pelo menos na visão deles e do próprio.

Em vez de um novo mandato de Trump, durante o qual Marc-André ressalta que os seguidores do QAnon teriam rédea solta, eles agora enfrentam o medo do que uma presidência de Biden trará.

“O que vai acontecer agora? O QAnon e outros atores de extrema direita provavelmente continuarão a se unir para alcançar seus objetivos de insurreição. Isso pode levar a uma continuação da violência, já que a ideologia do movimento continua a crescer na cultura americana.”

É sempre bom lembrar que em sua despedida, Trump disse que retornaria “de alguma forma”, sem especificar qual. 


Aldo De Luca, Conselheiro e colaborador do MediaTalks byJ&Cia, é jornalista brasileiro radicado em Londres. Formado em Jornalismo pela UFF (Universidade Federal Fluminense), foi repórter especial do jornal O Globo em 1987 e 1988. Fundou junto com Luciana Gurgel a agência Publicom, que se tornou uma das maiores empresas do setor no Brasil e em 2016 foi adquirida pela WeberShandwick (IPG Group). Além de jornalista, é Engenheiro pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Integra a FPA (UK Foreign Press Association).
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