Tráfego em sites de jornalismo cai até 20% na Austrália após Facebook proibir cancelamento de links em reação à lei de mídia, insuflando ainda mais a revolta contra a plataforma e alimentando o #DeleteFacebook

  • Legislação foi aprovada Câmara dos Representantes na noite de quarta-feira e será debatida pelo Senado 
  • Interrupção de serviços essenciais causou fúria no país, e isolou Facebook das demais plataformas no diálogo com o Governo australiano 
  • Canadá entra na briga e promete seguir os passos da Austrália 
Por Luciana Gurgel | MediaTalks, Londres
18.02.2021, atualizado em 19.02 para refletir a queda de tráfego para sites de notícias australianos após a  medida do Facebook e apoio do Canadá

A decisão do Facebook de proibir compartilhamento de links de notícias na Austrália por ser opor à regulamentação do pagamento por conteúdo jornalístico, decretada pela plataforma nesta quinta-feira (18/2), foi recebida como declaração de guerra, causando reações em todo o mundo. No sábado, o Primeiro-Ministro australiano, Scott Morrison, deu uma entrevista coletiva e informou que a empresa havia voltado à mesa de negociações.

E logo no primeiro dia da suspensão dos links, os resultados apareceram. Segundo a empresa de análises Chartbeat, o tráfego para sites de notícias caiu 13% nas primeiras horas após a proibição, e em alguns momentos chegou a 20%:

Infelizmente, o desaparecimento do Facebook resultou em um impacto nos números de tráfego de sites de notícias. Quando o tráfego do Facebook caiu, o tráfego geral da Austrália não mudou para outras plataformas.

Essa queda foi observada de forma mais dramática no tráfego para sites australianos de leitores de fora da Austrália. Como esse número de leitores era tão impulsionado pelo Facebook, no geral esse tráfego fora da Austrália caiu ao longo do dia em mais de 20% (e um pouco mais nas últimas horas).

Também observamos uma grande queda no tráfego de leitores dentro da Austrália: às 13h, horário do leste dos EUA, na quarta-feira [pouco antes de o Facebook fazer a mudança], mais de 15% das visitas de dentro da Austrália eram direcionadas pelo Facebook. O tráfego caiu continuamente a partir daí e, por volta das 20h, menos de 5% das visitas eram direcionadas pelo Facebook.

Logo após a decisão do Facebook ser anunciada, o Primeiro-Ministro Scott Morrison reagiu com dureza, chamando a empresa de “arrogante”. E  anunciou planos de engajar outros líderes globais na luta contra o gigante digital.

O Canadá pode ser o primeiro. O ministro da Economia, Steven Guilbeault, disse na quinta-feira que seu país seria o próximo a garantir que o Facebook pagasse pelo conteúdo de notícias.

Guilbeault, encarregado de redigir uma legislação de mídia semelhante à da Austrália, condenou a ação do Facebook na Austrália e disse que ela não deteria Ottawa.

O Canadá está na vanguarda desta batalha. Estamos entre os primeiros países  decididos a seguir em frente “, disse ele a repórteres.

 

#DeleteFacebook Metro Austrália

No Reino Unido e em vários países, ganharam força os movimentos incentivando o público a deixar a plataforma, com as hashtags ‘Delete Facebook’, ‘Boycott Zuckerberg’ e ‘Facebook We Need To Talk’ no Twitter.

O movimento ganhou destaque em vários jornais britânicos nesta sexta-feira (19), e foi capa do popular Metro.

A proibição enfureceu o país porque envolveu também os serviços de saúde e emergência, e não apenas conteúdo de empresas jornalísticas.

Segundo o Sydney Morning Herald, Scott Morrison, que desfruta de altos índices de popularidade, disse já ter conversado com o líder indiano Narendra Modi, em um primeiro movimento para impedir o Facebook de “intimidar governos eleitos”.

Morrison usou o próprio Facebook para se manifestar sobre a proibição, com uma postagem que não deixa dúvidas sobre as intenções de encarar a briga.

As ações do Facebook para deixar a Austrália hoje, cortar os serviços de informação essenciais sobre saúde e emergência, foram tão arrogantes quanto decepcionantes. Estou em contato regular com os líderes de outras nações sobre estas questões.

 

Essas ações só confirmam as preocupações que um número crescente de países expressam sobre o comportamento das empresas BigTech que pensam que são maiores do que os governos e que as regras não devem ser aplicadas a elas. Eles podem estar mudando o mundo, mas isso não significa que o dirijam.

 

Não seremos intimidados pela BigTech a tentar pressionar o nosso Parlamento à medida que vota no nosso importante Código de News Media Barganing. Assim como não nos intimidamos quando a Amazon ameaçou deixar o país e quando a Austrália uniu outras nações para combater a publicação de conteúdo terrorista nas plataformas de redes sociais.

Encorajo o Facebook a trabalhar construtivamente com o governo australiano, fazendo como o Google que tem demonstrado agir de boa-fé”. 

O movimento do Facebook foi arriscado e solitário. Nos últimos dias, o Google fechou acordos milionários com as principais empresas de mídia australianas – Seven West, Nine e a gigante News Corp., do magnata Rupert Murdoch – para incluir o conteúdo por elas produzido no News Showcase. E depois de conversas entre os CEOs do Google e do Facebook e o Governo australiano, o Ministro do Tesouro anunciou flexibilizações na lei que está no Parlamento e deve ser votada nos próximos dias.

Em seu comunicado, o FB disse:

“A lei proposta interpreta mal a relação entre nossa plataforma e os editores que a usam para compartilhar conteúdo de notícias. Isso nos deixou diante de uma escolha difícil: tentar cumprir uma lei que ignora a realidade dessa relação ou parar de permitir conteúdo de notícias em nossos serviços na Austrália. Com o coração pesado, estamos escolhendo o último. ”

E explicou em que consistia a proibição:

Para editores australianos, isso significa:

    • Eles estão proibidos de compartilhar ou postar qualquer conteúdo nas páginas do Facebook
    • Os administradores ainda poderão acessar outros recursos de sua página do Facebook, incluindo informações da página e Estúdio de Criação   
    • Continuaremos a fornecer acesso a todos os outros serviços padrão do Facebook, incluindo ferramentas de dados e CrowdTangle

Para editores internacionais, isso significa:

    • Eles podem continuar a publicar conteúdo de notícias no Facebook, mas links e postagens não podem ser visualizados ou compartilhados pelo público australiano

Para nossos usuários australianos, isso significa: 

    • Eles não podem visualizar ou compartilhar conteúdo de notícias australiano ou internacional no Facebook ou conteúdo de páginas de notícias australianas e internacionais 

Para nossos usuários internacionais, isso significa:

    • Eles não podem visualizar ou compartilhar conteúdo de notícias australianas no Facebook ou conteúdo de páginas de notícias australianas 

 

A inclusão dos serviços essenciais enfureceu ainda mais, com revolta generalizada na imprensa local.

 

 

O banimento removeu postagens do Bureau de Meteorologia, departamentos de saúde estaduais, serviços de bombeiros e resgate, instituições de caridade e serviços de crise, como Suicide Prevention Australia, 1800Respect e Break the Silence Against Violência doméstica.

A SA Health – que tem mais de 305.000 seguidores no Facebook – respondeu  com um comunicado dizendo que havia sido “apanhada nas restrições do Facebook que surgiram durante a noite para os meios de comunicação australianos”.

A empresa, que tem 17 milhões de usuários na Austrália, respondeu a uma enxurrada de reclamações admitindo que havia cometido um erro e prometendo restaurar as páginas “impactadas inadvertidamente”.

O Facebook também esnobou a imprensa australiana avisando que não vai lançar no país o Facebook News, já ativo no Reino Unido e nos Estados Unidos. No comunicado publicado no blog, o diretor da plataforma para a Austrália, William Easton, disse que diante da situação, o Facebook “vai priorizar outros países em seu programa de notícias e experiências de licenciamento”.

Espaço aberto para a desinformação 

Nas mídias sociais e nos jornais australianos, o risco de a decisão do Facebook ser um presente para os que propagam teorias conspiratórias foi um tema frequente. Sem o conteúdo confiável do jornalismo profissional à disposição, os usuários da rede ficariam mais sujeitos a serem expostos à desinformação.

A editora do Sydney Morning Herald, Lisa Davies, descreveu a mudança como uma “birra”, em um post no Twitter:

Em entrevista à BBC News, a diretora da Human Rights Watch na Austrália disse que o Facebook está censurando o fluxo de informações no país, no que classificou de”virada perigosa nos acontecimentos”.

“Cortar o acesso a informações vitais para um país inteiro na calada da noite é injusto”, disse Elaine Pearson.

 

O Governo australiano acredita que o chefe do Facebook, Mark Zuckerberg, vai retomar as negociações sobre a lei, apesar de sua repentina mudança para encerrar o conteúdo para milhões de seus próprios clientes, mas também está se preparando para uma batalha prolongada, se necessário.

Matéria publicada na tarde de quinta-feira (18) pelo The Guardian revelou que o Ministro do Tesouro da Austrália, Josh Frydenberg,  disse ter tido mais cedo conversas construtivas sobre a regulamentação com CEO do Facebook, Mark Zuckerberg. Mas ele teria indicado que o governo não estava disposto a mudar a proposta.

O Ministro disse ao jornal que Zuckerberg expressou suas preocupações com aspectos da lei e para a  interpretação de alguns de seus elementos. E que o CEO ficou de voltar com algumas opiniões mais ponderadas.

“Vamos ouvi-lo e discutir isso com o primeiro-ministro e com nossos colegas. E vamos tomar decisões então. Mas estamos comprometidos com o código”, afirmou o Ministro ao Guardian. 

A legislação foi aprovada na Câmara dos Representantes na noite de quarta-feira e será debatida pelo Senado em breve. O governo pode buscar fazer emendas dependendo do resultado das negociações com o Facebook – que podem trazer as notícias de volta à plataforma.

Mas, por enquanto, o Facebook não mostrou qualquer disposição de recuar, exceto para desbloquear páginas administradas pelo governo.

E vai ser uma batalha solitária para o Facebook, porque tanto o Google (elogiado pelo Primeiro-Ministro) como a Microsoft, que há duas semanas anunciara apoio à nova lei, dão sinais de que entenderam que a briga pode não valer a pena.


Luciana Gurgel,  Coordenadora editorial  do MediaTalks byJ&Cia, é jornalista brasileira radicada em Londres. Iniciou a carreira no jornal o Globo, seguindo depois para a comunicação corporativa. Em 1988 fundou a agência Publicom, junto com Aldo De Luca, que se tornou uma das maiores empresas do setor no Brasil e em 2016 foi adquirida pela WeberShandwick (IPG Group). Mudou-se para o Reino Unido e passou a colaborar com veículos brasileiros, atuando como correspondente do canal MyNews e colunista semanal do Jornalistas&Cia / Portal do Jornalistas, no qual assina uma coluna semanal sobre tendências no mundo do jornalismo e da comunicação. É membro da FPA (Foreign Press Association). 
Os artigos do MediaTalks by J&Cia podem ser reproduzidos no todo ou em parte com citação da fonte e do autor, com link para o original. 
Leia mais sobre os acordos fechados com os veículos australianos – um deles estimado em AU$ 30 milhões ao ano e os desdobramentos da regulamentação que vem sendo observada pelo mundo inteiro e pode servir de modelo para legislações semelhantes em outros países.

 

 

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